segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Série Encontros Inusitados: Minha garrafa de Vega Sicília


Você, que como eu, guarda uma ou outra garrafa sabe que uma de nossas angustias permanentes é saber quando devemos tomar um vinho. Se abrirmos a garrafa cedo demais é pedofilia, se passarmos do ponto é necrofilia.

Felizmente as revistas internacionais, que podem abrir sucessivas garrafas para ver se “ já está pronto”, publicam aquelas listas com “drink or hold”, para orientar os mais aficionados na organização de suas degustações.

Robert Parker diz qual é o melhor momento pra se tomar um vinho, só não diz se você ou eu iremos à degustação.

Nestas semanas que venho dividindo com vocês meus “encontros inusitados ” pra comemorar um ano do blog e também meu mais recente trabalho e tantas outras coisas boas eu resolvi abrir minha garrafa de Vega Sicília. De todos os vinhos degustados junto com estas personalidades inusitadas, sem dúvida um dos mais míticos e valiosos é o Vega Sicília. Como só tenho uma garrafa, e sendo o vinho uma bebida associativa, não há hipótese nenhuma de ficar sozinho, “bebendo” mesmo que seja em um bar de hotel cinco estrelas com vista noturna de São Paulo, por isso vou selecionar amigos para compartilhar meu vinho.

Uma garrafa dá pra oito pessoas, tirando eu, ficam sete. Como selecionar sete pessoas pra tomar meu Vega Sicília ?

Por antiguidade. Vou fazendo uma lista dos meus sete amigos mais antigos. Não deu certo, muitos não bebem nada e os que bebem não dão a mínima pra vinho e eu não vou dividir meu Vega Sicília com quem não partilhe dele também as emoções. Pela mesma razão não vou incluir meu filho, só vai poder beber vinho depois dos 14 anos e minhas duas enteadas não são adeptas a beber. Opa ! Tem a minha esposa, a Kátia, então só temos seis vagas. Melhor apelar pra um sorteio. Vou relacionando todos meus amigos e fazendo um sorteio. A chuva cai calmamente lá fora e as goteiras intermitentes da varanda podem funcionar bem. Escolho um nome conto até três, se pingar está aprovado. (Espera ai, você está roubando! Neste último nome você contou até três depressa demais. Quer excluir, assuma, mas nada de violar o painel!)

Finalmente sai o primeiro nome. Mas logo este? Se ele achou que o champagne que abri no meu aniversário estava estragado por parecer salgado, já pensou o que vai achar do meu Vega? O segundo não... corta. Esse ai espalhou que me perdi dentro da Chandon com uma aeromoça por quatro horas que culminou no atraso de toda equipe da ABS a um evento na Casa Valduga.

Apesar das objeções chego a seis nomes, mas não gosto da lista. Faltaram o André e Miriam Martin, o professor Anselmo, a Rozí Iura, o Coutinho, o Dairson Dadá , o Ivan Nestorenko, o Francisco que me explicou a diferença entre acidez e adstringência nos primeiros anos de ABS. O Roberto que foi meu padrinho na confraria do Porto, o Carlos Cortezi e sua esposa Silvia, que apesar de não beberem são uma ótima companhia.

Desisto.

Vou beber meu Vega com todos meus leitores, mas como eles são mais que seis (quatorze, segundo minha última pesquisa), a participação será virtual.

Deixo aqui o meu sincero e carinhoso obrigado a todos. É realmente fantástico conviver com pessoas inteligentes e bem humoradas.

Até breve!.

Um ótimo 2010. Boas Festas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O último "top 10" de 2009 !


Todos nós conhecemos várias frases sobre o vinho ditas por filósofos, políticos e várias outras personalidades mas qual é a sua frase particular ou a frase que mais gosta ?

domingo, 22 de novembro de 2009

Série Encontros Inusitados: Beethoven


Até onde pesquisei e estudei sobre a história do vinho, especialmente o do Porto que tanto aprecio e admiro, e do pouco que li sobre a vida de Ludwig Von Beethoven, nunca soube que esses dois monstros sagrados da humanidade tenham se cruzado um dia, nem Beethoven compôs uma Sonata para esse vinho, nem o vinho do Porto esquentou o coração do gênio da música. Como nada disso é empecilho para me atrever a criar um encontro inusitado lá fui eu tentar imaginar uma situação pitoresca entre esses dois personagens que tanto aprecio e quase sempre me acompanham quando sento a noite pra papear comigo mesmo.

Há algumas semanas com minha esposa e filhas, fomos a um concerto na sala São Paulo. No programa daquela noite, duas obras de Beethoven, o concerto para piano e orquestra n° 5 Imperador e a Sinfonia n° 5, a famosa Sinfonia do Destino. Nunca imaginei ver e sentir o meu vinho do Porto com tanta vibração, vou tentar explicar: O concerto para piano e orquestra n° 5 em mi bemol maior, o Imperador opus 73, composto em 1809, exige um virtuosismo superior do pianista, que faz grandes variações sobre o tema, e em segundos deve ir de romântico para guerreiro e sem perder o rebolado (ops! A classe). O primeiro movimento, Allegro, é vigoroso como um Porto Ruby, jovem de até três anos, tal qual como nasce um Vintage. Esse Porto é rico em cor, pode ser chamado de retinto ou encarnado, seus segredos constituem-se em ter o álcool bem casado, ou seja, a aguardente harmonizada ao vinho na elaboração do mesmo, bem integrada, não agredindo as narinas na olfação e uma grande explosão de frutas maduras, destacando-se a framboesa. Sua prova é envolvente, a boca fica plena de fruta vigorosa e a permanência desses aromas e sabores à boca é persistente, bem longa.
O mesmo ocorre com esse movimento, cadente, repetitivo, brilhante, sonoro ao extremo, no qual a alma toma o lugar das papilas gustativas, fazendo permanecer, por longo tempo, o compasso na memória.

O segundo movimento é romântico, lírico, um poema de amor. É límpido e envolvente como um Porto Colheita com mais de 50 anos. Tem aromas de uma boa passagem pela madeira e as frutas secas formam sua maior essência. Perfuma o ambiente tal qual essa melodia que até as paredes se calam para ouvi-Ia.

No final um Rondó, Allegro ma non troppo, convida a um bom Porto LBV, do mesmo ano de um grande Vintage, com muita força, raça e plenitude na boca, envolvente, fazendo lembrar um caldo de framboesas bem maduras.

O que dizer da 5° Sinfonia, chamada a do Destino, cuja sonoridade de suas quatro primeiras notas realmente faz criar na mente e na alma a sensação do destino batendo a nossa porta.

O povo português pode e deve orgulhar-se de ser o único entre todos na terra a ter uma identidade líquida, o vinho do Porto, que mais do que vinho é a alma portuguesa na forma líquida.

Só um Porto se compara à 5° Sinfonia de Beethoven, o Vintage. Tão raro quanto esta grande obra, o Vintage é um capricho da Natureza.

Enfim, feliz daquele que pode provar, simultaneamente, essas duas obras mestras do Homus Sapientes, o som de Beethoven e o vinho do Porto.

*Isso é bom !

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte V

“O marinheiro sueco, um loiro de quase dois metros, entrou no bar, soltou um bafo pesado de álcool na cara de Nacib e apontou com o dedo as garrafas de “Cana de Ilhéus”. Um olhar suplicante, umas palavras em língua impossível. Já cumprira Nacib, na véspera, seu dever de cidadão, servira cachaça de graça aos marinheiros. Passou o dedo indicador no polegar, a perguntar pelo dinheiro.Vasculhou os bolsos o loiro sueco, nem sinal de dinheiro. Mas descobriu um broche engraçado, uma sereia dourada. No balcão colocou a nórdica mãe-d'água, Yemanjá de Estocolmo. Os olhos do árabe fitavam Gabriela a dobrar a esquina por detrás da Igreja. Mirou a sereia, seu rabo de peixe. Assim era a anca de Gabriela. Mulher tão de fogo no mundo não havia, com aquele calor, aquela ternura, aqueles suspiros, aquele langor. Quanto mais dormia com ela, mais tinha vontade. Parecia feita de canto e dança, de sol e luar, era de cravo e canela...”


Mesmo relendo, sempre me surpreendo com os romances de Jorge Amado assim como também me surpreendo com os vinhos feitos no Vale do São Francisco cada vez que provo uma nova safra. Em uma visita rápida ao nordeste brasileiro tive a oportunidade de conhecer parte da nossa nova e mais promissora região produtora de vinhos e também percorrer em 20 minutos os cômodos da casa em que Jorge Amado e Zélia Gattai moraram.

Quando o passeio acabou sentei numa banqueta próxima a casa de Jorge Amado e abri “Gabriela”. Depois de um tempo, fechei o livro e comecei a me imaginar abrindo uma garrafa de vinho na cozinha daquela simpática casa.Pensei na coleção de copos que Jorge Amado tinha diabos e mulheres nuas me fariam cometer a heresia de dispensar a taça. Deixei o livro de lado e procurei o responsável pela manutenção do lugar. "Gostaria de visitar a casa à noite. E sozinho", disse-lhe. "Não é possível. As visitas são guiadas e realizadas em determinados horários", respondeu-me. Algumas regras existem para serem burladas. E eu estava disposto a gastar alguns reais para realizar meu desejo.

Pontualmente, depois da novela das oito, estava diante da casa de Jorge Amado. Maleta à mão, esperei cerca quarenta e cinco minutos, o que na Bahia é praticamente o tempo médio de um preparo “ fast-food” qualquer. Um guarda surgiu do lado de fora, olhou para mim parecendo que me conhecia. Tive a mesma sensação. Aproximou-se lentamente e com um sorriso amigo sussurrou: "É democrata?". Retruquei: " na mais pura acepção da palavra". A senha e a contra-senha compunham a forma com que Jorge Amado se referia a Castro Alves “Um democrata na mais pura acepção da palavra”. Paguei o restante da propina e passei pelo portão. Com lanterna na mão, ele me levou até a entrada da cozinha. "Fique à vontade. Não precisa ter pressa e sair pela rua acordando as estátuas", disse com um sotaque estranho que não parecia nem de longe baiano mas que por algum motivo parecia familiar pra mim.

Velas em dois castiçais criavam uma atmosfera lúgubre. Poética. Retirei de minha maleta o último vinho que restava e aproximei-me da coleção de copos coloridos. Um estrondo. Meu coração disparou. Alguém surgiu de dentro do armário da cozinha. Olhos atentos. Sorriso no rosto. Poesia nos lábios: " Que coisa! Quem diria! Trinta e cinco quilômetros em hora e meia...Antigamente a gente levava dois dias, a cavalo....". Até cair a ficha que eu já havia lido aquele trecho em “Gabriela”, eu já tinha caído sentado na cadeira da cozinha.

Ele apanhou três copos e sentou-se ao meu lado. "Estou acostumado a beber com a Zélia, mas é cachaça, como hoje espero a visita de um amigo seu vinho vai cair muito bem", confidenciou Jorge Amado. Poucos minutos depois, o poeta levantou-se para atender a porta. "Meu grande amigo brasileiro" saudou o visitante com um forte abraço. Era o escritor Pablo Neruda. "Faz tempo que a gente não se encontra” meu conterrâneo questionou o chileno com um sorriso de deboche.

Em algumas férias, Pablo costumava visitar o amigo na Bahia. Mas fazia questão de levar os vinhos de seu país. "São os melhores", repetia toda vez que uma garrafa era aberta durante o almoço ou jantar preparado por Zélia Gattai. Certa vez, Jorge Amado resolveu pregar uma peça no amigo. Comprou vinho brasileiro de garrafão e encheu garrafas com rótulos chilenos. "Quanto você quer apostar que ele nem vai perceber?", perguntou à esposa. Risadas. Na quarta taça, Pablo fez um brinde especial: "Aos vinhos chilenos. Isso sim é que é vinho, no Brasil, vocês deveriam produzir apenas cachaça". Zélia e Jorge se entreolharam e caíram na gargalhada. "O que foi?", indagou o poeta, ressabiado. "Isso é vinho brasileiro... E dos mais ruinzinhos", entregou Jorge. "Então, um brinde aos brasileiros", contornou Pablo, rindo com os dois.

"Você sabia que nós estamos entre os maiores exportadores de vinho do mundo? Já ouviu falar dos Chatôs Chilenos?". "Não, mas vamos descobrir depois de tomarmos o vinho que nosso amigo trouxe do Vale do São Francisco", respondeu Jorge. A garrafa se foi praticamente em um piscar de olhos quando, então, o poeta abriu um armário e retirou os mais prestigiados vinhos do Chile. Na sexta garrafa, Jorge cometeu a ousadia de interromper Pablo enquanto ele divagava sobre os mistérios do mar. "Esse negócio de Chatôs Chilenos não está com nada", disse, fitando a ilustração da mulher nua em seu copo. "Por que não?", indagou o poeta, surpreso. "Já ouviu falar dos Castelinhos vermelhos aqui do Brasil? ", indagou Jorge. Sorriso maroto. Pablo riu e improvisou uma poesia. Era a melhor descrição de uma mulher que eu jamais ouvira. "Você está falando da minha Gabriela", brincou o baiano, colocando sua garrafa de cachaça sobre a mesa. E emendou: "Agora vamos tomar do meu Chatô". Todos nós caimos na gargalhada. "Um brinde às brasileiras", adiantou-se Pablo, elevando o copo com a mais pura “Cana de Ilhéus”..

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte IV

Não gosto e não concordo com boa parte do sistema democrático de governo, mas a democracia ainda é o melhor modelo que conheço. Enquanto filósofos e estudiosos do nosso tempo não encontrarem outro sistema, devemos ficar sujeitos às coisas boas e ruins da democracia como, por exemplo, políticos. Uma categoria que nada parece aplacar a sua sede de poder.

Apenas um adjetivo identifica todos eles como membros de um mesmo espécime, independente de época, partido político ou país revelando o nome do mestre: maquiavélico. Teria sido Nicolau Maquiavel um homem tão terrível? Ao me aproximar de seu túmulo, na Santa Croce, eu já havia bebido com Dante, Michelangelo e Galileu. Para cada um deles, um estilo de vinho. Com o autor de A Divina Comédia, um Amarone feito por seus descendentes. Um honesto Brunello tinha revelado o gosto questionável de um dos artistas mais sensíveis do renascimento e um Chianti Classico levado luz aos olhos do pai da Física.

Para Maquiavel, reservei um super-toscano. A introdução de uvas estrangeiras em um corte italiano denunciava que alguns produtores fizeram alianças com o inimigo para cativar o gosto dos enófilos, mesmo que o preço tenha sido uma punhalada na tradição. Ou seja, praticaram as lições de O Príncipe, obra-prima de Maquiavel, escrita em 1513.

Apanhei o livro e me preparei para dar os passos finais, que me colocariam face a face com o pai da Política moderna. De repente, a luz do meu candelabro se apagou. Uma voz agonizante cortou o silêncio seguido por milhares de gritos, lamentos, gemidos. Acendi novamente a chama e olhei para a urna funerária de Maquiavel. Um homem, sentado sobre ela, estava concentrado mostrando a sisudez de sua face. Era Adolf Hitler. Desarrolhei um "Ornellaia" e servi apenas minha taça. Vinho é uma bebida que exige companhia, mas, em certos casos, deve prevalecer o ditado: "Antes só do que mal acompanhado". Quando me viu empunhando a taça, o abstêmio mais cruel que a humanidade jamais conheceu ergueu-se e ameaçou um discurso, mas desapareceu na escuridão como exorcizado ao ver o vinho refletir a luz. Sorri com a ironia: A personificação da maldade derrotada por uma taça de vinho.

O túmulo era ornamentado por uma escultura de mulher. Nas mãos de pedra, um perfil de Maquiavel. Como seu vizinho na basílica, o poeta Dante, o primeiro grande pensador da era moderna também tinha sido exilado por razões políticas. Enquanto degustava o primeiro gole, abri aleatoriamente o livro e li a citação: "É melhor ser temido que amado". Observei calmamente um homem sair do esquife- já havia bebido muitas taças de vinho -. "Obrigado, você me libertou. Desde que cheguei aqui, um maluco bloqueava minha saída, ora em silêncio, ora proferindo discursos inflamados. Este último era um dos piores", desabafou. Servi-lhe uma taça do "Ornellaia". "É um belo vinho, mas não tem o gosto da minha terra. Isso me lembra o exílio. Apesar da distância, os aromas e os sabores de alguns vinhos me traziam de volta para cá", revelou.

Nicolau narrou episódios saborosos da história. Eu não conhecia a maioria e desejei não ter bebido tanto. Mas, em sua voz, os personagens desfilavam diante de nossos olhos. "Vamos percorrer a cidade", convidou-me. Deixamos Santa Croce. Ao passarmos diante da Galleria degli Uffizi, os homens mais ilustres da cidade deixaram os postos de estátuas ornamentais e aproximaram-se de Maquiavel. Antes de cumprimentá-los, ele me disse: "Nada faz o homem morrer tão contente quanto o recordar-se de que nunca ofendeu ninguém, mas, antes, beneficiou a todos". Contrariando o próprio conselho, Nicolau tinha se tornado um dos homens mais amados da Itália.

O passeio havia acabado.

Na manhã seguinte, estava a caminho da estação de trem, quando pessoas apressadas, em trajes estranhos, passaram por mim. Uma delas se deteve e me olhou, assustada. "Onde você está indo?", questionou. "Bahia", respondi rispidamente, diante da insolência. "Justo agora! Savonarola será queimado na praça", justificou correndo para alcançar o grupo.

Continuei meu caminho, não desejava presenciar o reformador dominicano arder na "fogueira das vaidades", criada por ele mesmo. Eu levava na bagagem o melhor da Itália e de volta, “Gabriela” e um vinho produzido no Vale do São Francisco que não ousei abrir por não estar na temperatura correta o que me tornaria, no mínimo, maquiavélico.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte III

“No entanto, ela se move”: Teria sussurrado Galileu, depois do julgamento no Tribunal do Santo Ofício.

Condenado a negar publicamente suas teses, o cientista teve a prisão decretada pela Santa Sé. Para os homens da época, as idéias de Galileu eram mais do que a negação das Sagradas Escrituras. Eram a prova de que Deus tinha relegado seus filhos a um segundo plano. A Terra se movia ao redor do Sol, submissa e dócil. Essa conclusão fazia de Galileu não apenas um excelente cientista mas um homem cruel que tirava da humanidade o prazer de habitar o centro do universo. Mas poucos sabiam que atrás daquele homem escondia-se um apreciador de vinhos.

As correspondências com o discípulo Benedetto Castelli traziam, entre observações científicas, comentários sobre queijos e a descrição – com notas e tudo mais que constumamos fazer nos dias de hoje – dos melhores vinhos da época. Isso mesmo, além de pai da Física moderna, Galileu pode ser considerado o pai dos sistemas atuais que usamos para classifica em número a qualidade da bebida mas , sou capaz de apostar, não era um enochato.

Ao aproximar-me do túmulo de Galileu, na Santa Croce, após um rápido encontro com Michelangelo, abri o livro Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Universo, uma garrafa do “Chianti Classico Castello di Brolio”, duas taças e muitas respostas. “Eppur su Muove”: a frase, possivelmente apócrifa, estava inscrita no mármore. Acima, erguia-se o busto de Galileu com os olhos no Firmamento, a mão direita segurando uma luneta e a esquerda repousando sobre uma esfera. Era o testemunho de que a verdade científica tinha triunfado sobre o fanatismo religioso, no entanto, ele só foi oficialmente absolvido pela Igreja Católica 341 anos após sua morte, ou seja, em 1999.

Folheei o livro escrito por ele. “O que Galileu acharia das Leis de Newton? E da Teoria da Relatividade? E a física quantica ?” questionei abrindo a garrafa de vinho. Ao observar o líquido dançar na taça, lembrei que o termômetro estava entre as inúmeras invenções do cientista. Em sua versão primitiva, o instrumento levava vinho no bulbo, em vez de mercúrio.

Silêncio.

Já havia bebido duas taças e estava pronto para deixar o lugar quando fui surpreendido por uma voz grave: “Quem está aí?”.

“Quer um pouco de vinho?”, estendi a taça na direção daquele homem que após tatear o espaço vazio segurou-a com firmeza parecendo guiar-se unicamente pela minha voz e totalmente indiferente à fraca iluminação do candelabro.

A morte não havia curado a cegueira do célebre cientista. Fiz uma pequena reverência ao concluir que estava diante de Galileu. “O vinho é composto de humor líquido e luz”, disse-me. Em seguida, girou a taça e sentiu os aromas do vinho. “Glorioso, divino!”, exclamou. Após degustá-lo, caiu na gargalhada. “Luz. Sempre soube que o vinho era milagroso, mas que frasco esquisito”, concluiu examinando a garrafa nas mãos com uma expressão de encantamento nos olhos.

"É, respondi, na verdade a garrafa deveria ser quadrada e áspera pra facilitar a... ". Sem graça, silenciei-me em minha ignorância.Ele prosseguiu: “Os homens são como frascos de vinho. Examine os frascos em uma taverna, antes de beber vinho tinto. Alguns quase não têm decoração. Estão empoeirados e despojados... Mas cheias de um vinho que inspira os bebedores a cantá-lo chamando-o de glorioso e divino. Depois, repare em outros frascos com lindos rótulos. Ao experimentá-los, você vai ver que estão cheios de ar ou perfume. Esses frascos só servem para se urinar dentro deles”.

Aquela genialidade e bom humor me fizeram rir, imaginando as garrafas nas quais urinaria e as pessoas “cheias de ar” que conhecia. “De onde você vem?”, questionou Galileu. “Do futuro”, respondi, desconhecendo resposta mais apropriada. “Como isso é possível?”, indagou incrédulo. “No mesmo ano da safra deste vinho, você foi absolvido pelo papa”, revelei a ele. “O papa sabia que eu estava certo. Meu julgamento foi uma encenação. Quer prisão melhor do que a minha? Cinco aposentos com vista para os jardins do Vaticano e um mordomo para cuidar das refeições e do vinho”, disse, referindo-se à sua “dura” pena. “Minhas idéias prevaleceram?”, prosseguiu ansioso. “Grandes cientistas apoiaram-se nelas. Um deles afirmou: ‘Se pude ver mais longe foi por estar sobre o ombro de gigantes’. E você era um deles”, respondi. Ele sorriu.

Passos na escuridão. Dois homens inconfundíveis aproximaram-se. Isaac Newton e Albert Einstein saudaram Galileu: “Gênio, Gênio”. Após apresentar os três, o autor da Teoria da Relatividade explicou aos antecessores os avanços da Física. Afastei alguns passos. Um estrondo na direção dos cientistas atrapalhou minhas divagações. Observei com assombro Newton e Einstein diminuírem de tamanho, e Galileu transformar-se em um gigante de oito metros de altura. Ele colocou os dois cientistas sobre seus ombros, pegou a luneta e passou por mim apressado, cantarolando “Eppur su Muove”. Lembrei de meu amigo gigante, André Martin. Levantei um brinde a eles, abri minha maleta e deparei com as duas últimas garrafas de vinho e o livro O Príncipe.

Eu ainda tinha uma visita a fazer antes do deixar o local.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pausa para "prosiá" sobre "Viti-curtura!"e outras cousas mais

Algumas perolas que recebi de bons amigos e do Forúm.

Viti-curtura!
Degustação de vinho em Minas - Luiz Fernando Veríssimo

- Hummm...
- Hummm...
- Eca!!!
- Eca?! Quem falou Eca?
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...
- Putaqueupariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo ?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Cêbêsta sô, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é ?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende?
Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi é nada e nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincanu com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de metê um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovidu, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é trêis! Num corre, não, fiudaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!...

Esse cara já sabia o que era bom !
O Faró Tutancamon era consumidor de-vinho

Vale a pena ver de novo!
Pra quem nunca viu ou quem já viu rever esse video muito legal

Obrigado Miriam, Andre e Ana pela contribuição.

Abraços