O "'As" de James


Eu viria a contar essa história anos depois para minha amiga inglesa, Elizabeth McTarry, ou “M” como eu a apelidei. Ela se divertia e pedia para contar a mesma história várias vezes sempre que me via. Nunca achei graça, muito pelo contrario. Sempre achei a história de James triste.

Era uma noite fria em São Paulo em uma época em que ir para o interior do estado de trem ainda mantinha certo romantismo e um clima “noir”. No trem, apesar de não permitido, o jogo de cartas acontecia em um vagão clandestino usado como cassino o que era um convite a pessoas de todo tipo de estampa. Das mais finas as mais vulgares.

Na cabine, eu e um distinto senhor elegantemente trajado, de idade avançada o que não impedia a qualquer um notar seu ar de “bom vivant” e seu semblante aquilino demonstrando que ainda era uma espécie de “macho alfa”. Ambos lutávamos contra o cansaço procurando o sono pela janela, olhando a imensidão da noite até que o tédio nos venceu e como se pensasse alto ele começou uma conversa.

Filho eu passei essa vida toda lendo os rostos das pessoas. Sabia quando mentiam, sabia quando blefavam pelo simples movimento dos olhos e se não se importa, eu vejo que você está sem um Ás seja qual for o jogo que está jogando nessa vida. Deduzo que pelo que está lendo gosta de vinhos e agora confirmo pelo seu sorriso então desculpe a invasão, mas se tiver uma garrafa com você ficaria feliz de compartilhar-la e em troca posso te dar alguns conselhos.

Li uma vez que “Conselhos nada mais são que uma forma de nostalgia”. Isto para quem os dá, mas nem sempre é agradável para quem os ouve. Ainda havia muitos kilometros de trilho e aceitei a proposta.

Mortalmente silenciosa, a noite pareceu cair sobre o semblante daquele senhor.

Bonderlei .

Desculpe senhor, é um vinho do porto...

Sim eu sei. Bonderlei, James Bonderlei é o meu nome. Coisas de mãe, ela era apaixonada por meu pai Vanderlei que era condutor de bondinhos. Quanto ao vinho, nunca foi minha bebida preferida, no entanto a simbologia é perfeita para este momento e acredito que o vinho também o será.

Antes que eu pudesse me apresentar ele começou: Nessa vida, você tem que saber jogar. Saber quando esperar, simplesmente parar por um tempo, saber quando disparar em direção a algo. Se você ganhar uma rodada, espere. Não pense na vitória e muito menos na derrota. Não existem vitórias ou derrotas antes do jogo acabar. Não as contabilize, pois são apenas formas de treinamento. Você terá tempo de sobra pra contá-las realmente quando o jogo acabar porque somente assim você saberá se foi ou não vitorioso.

O segredo de sobrevivência desse jogo é que a cada rodada há um ganhador e um perdedor e o melhor que pode fazer é esperar pela melhor mão de cartas. Às vezes você terá um Ás , mas mesmo assim terá que contar apenas com você e não com a sorte mostrada.

Com um olhar cansado desapareceu naquela escuridão deixando pra trás seu corpo e suas últimas palavras, seu último Ás sob a manga.

9 comentários:

A Senhora disse...

My name is...

Bonderlei?! :)))) E o pai era condutor de bondinho?! :))

Mas ele, pelo menos, era uma cara esperto. Tomou o vinho. ;)

beijos

Zainer Araujo disse...

meio fraco eu sei...mas espero que ajude mais pra frente ;)

Anônimo disse...

Que imaginação...viajou

Andrew Freitas disse...

Bonderlei...bondinho RARARA!!!!! Chama o JUÇA!!!!!

Ana disse...

É mesmo..o Juça estava ficando legal, foi pra França integrar algum juri. Alias...como você não está mais vindo aqui pro sul na avaliação nacional de safras bem que podia passar o contato do Juça pra gente convidá-lo. ;)

Andre Martin disse...

A história é ótima, com dicas muito interessantes. A analogia do jogo e análise do jogador servem pra vida!

O que me pareceu um desperdício e meio fora do contexto foi a viagem de trem de São Paulo para o interior com um cassino num vagão clandestino. Se ao menos fosse ambientado na Europa... ou EUA...

Zainer Araujo disse...

hauha É...foi uma viagem !!!

Zainer Araujo disse...

O Juça está ocupado acompanhando um figurão americano por uma viagem ao vale do Napa que quer rodar um filme parecido com o "Sideways" mas ao invés de vinho, cachaça.

Segundo Juça, o vale do Napa é uma terra próspera para plantação de um híbrido de cana-de-açúcar com limão. Parece mais uma de suas idéias malucas mas os irmãos Spil e Berg parecem ter gostado da idéia.

Não espere ele antes do fim do ano a não ser, claro, que ele seja extraditado do pais ou os enochatos de lá chutam ele de volta aos enochatos de cá assim que souberem da idéia.

Ops...acho que eu deveria usar " Anonimo" nesse comentário....

Andre Martin disse...

esse é o tipo de comentário que tá mais pra post do que comentário...
o que veio fazer aqui?

Vale a pena experimentar