O último "top 10" de 2009 !


Todos nós conhecemos várias frases sobre o vinho ditas por filósofos, políticos e várias outras personalidades mas qual é a sua frase particular ou a frase que mais gosta ?

Série Encontros Inusitados: Beethoven


Até onde pesquisei e estudei sobre a história do vinho, especialmente o do Porto que tanto aprecio e admiro, e do pouco que li sobre a vida de Ludwig Von Beethoven, nunca soube que esses dois monstros sagrados da humanidade tenham se cruzado um dia, nem Beethoven compôs uma Sonata para esse vinho, nem o vinho do Porto esquentou o coração do gênio da música. Como nada disso é empecilho para me atrever a criar um encontro inusitado lá fui eu tentar imaginar uma situação pitoresca entre esses dois personagens que tanto aprecio e quase sempre me acompanham quando sento a noite pra papear comigo mesmo.

Há algumas semanas com minha esposa e filhas, fomos a um concerto na sala São Paulo. No programa daquela noite, duas obras de Beethoven, o concerto para piano e orquestra n° 5 Imperador e a Sinfonia n° 5, a famosa Sinfonia do Destino. Nunca imaginei ver e sentir o meu vinho do Porto com tanta vibração, vou tentar explicar: O concerto para piano e orquestra n° 5 em mi bemol maior, o Imperador opus 73, composto em 1809, exige um virtuosismo superior do pianista, que faz grandes variações sobre o tema, e em segundos deve ir de romântico para guerreiro e sem perder o rebolado (ops! A classe). O primeiro movimento, Allegro, é vigoroso como um Porto Ruby, jovem de até três anos, tal qual como nasce um Vintage. Esse Porto é rico em cor, pode ser chamado de retinto ou encarnado, seus segredos constituem-se em ter o álcool bem casado, ou seja, a aguardente harmonizada ao vinho na elaboração do mesmo, bem integrada, não agredindo as narinas na olfação e uma grande explosão de frutas maduras, destacando-se a framboesa. Sua prova é envolvente, a boca fica plena de fruta vigorosa e a permanência desses aromas e sabores à boca é persistente, bem longa.
O mesmo ocorre com esse movimento, cadente, repetitivo, brilhante, sonoro ao extremo, no qual a alma toma o lugar das papilas gustativas, fazendo permanecer, por longo tempo, o compasso na memória.

O segundo movimento é romântico, lírico, um poema de amor. É límpido e envolvente como um Porto Colheita com mais de 50 anos. Tem aromas de uma boa passagem pela madeira e as frutas secas formam sua maior essência. Perfuma o ambiente tal qual essa melodia que até as paredes se calam para ouvi-Ia.

No final um Rondó, Allegro ma non troppo, convida a um bom Porto LBV, do mesmo ano de um grande Vintage, com muita força, raça e plenitude na boca, envolvente, fazendo lembrar um caldo de framboesas bem maduras.

O que dizer da 5° Sinfonia, chamada a do Destino, cuja sonoridade de suas quatro primeiras notas realmente faz criar na mente e na alma a sensação do destino batendo a nossa porta.

O povo português pode e deve orgulhar-se de ser o único entre todos na terra a ter uma identidade líquida, o vinho do Porto, que mais do que vinho é a alma portuguesa na forma líquida.

Só um Porto se compara à 5° Sinfonia de Beethoven, o Vintage. Tão raro quanto esta grande obra, o Vintage é um capricho da Natureza.

Enfim, feliz daquele que pode provar, simultaneamente, essas duas obras mestras do Homus Sapientes, o som de Beethoven e o vinho do Porto.

*Isso é bom !

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte V

“O marinheiro sueco, um loiro de quase dois metros, entrou no bar, soltou um bafo pesado de álcool na cara de Nacib e apontou com o dedo as garrafas de “Cana de Ilhéus”. Um olhar suplicante, umas palavras em língua impossível. Já cumprira Nacib, na véspera, seu dever de cidadão, servira cachaça de graça aos marinheiros. Passou o dedo indicador no polegar, a perguntar pelo dinheiro.Vasculhou os bolsos o loiro sueco, nem sinal de dinheiro. Mas descobriu um broche engraçado, uma sereia dourada. No balcão colocou a nórdica mãe-d'água, Yemanjá de Estocolmo. Os olhos do árabe fitavam Gabriela a dobrar a esquina por detrás da Igreja. Mirou a sereia, seu rabo de peixe. Assim era a anca de Gabriela. Mulher tão de fogo no mundo não havia, com aquele calor, aquela ternura, aqueles suspiros, aquele langor. Quanto mais dormia com ela, mais tinha vontade. Parecia feita de canto e dança, de sol e luar, era de cravo e canela...”


Mesmo relendo, sempre me surpreendo com os romances de Jorge Amado assim como também me surpreendo com os vinhos feitos no Vale do São Francisco cada vez que provo uma nova safra. Em uma visita rápida ao nordeste brasileiro tive a oportunidade de conhecer parte da nossa nova e mais promissora região produtora de vinhos e também percorrer em 20 minutos os cômodos da casa em que Jorge Amado e Zélia Gattai moraram.

Quando o passeio acabou sentei numa banqueta próxima a casa de Jorge Amado e abri “Gabriela”. Depois de um tempo, fechei o livro e comecei a me imaginar abrindo uma garrafa de vinho na cozinha daquela simpática casa.Pensei na coleção de copos que Jorge Amado tinha diabos e mulheres nuas me fariam cometer a heresia de dispensar a taça. Deixei o livro de lado e procurei o responsável pela manutenção do lugar. "Gostaria de visitar a casa à noite. E sozinho", disse-lhe. "Não é possível. As visitas são guiadas e realizadas em determinados horários", respondeu-me. Algumas regras existem para serem burladas. E eu estava disposto a gastar alguns reais para realizar meu desejo.

Pontualmente, depois da novela das oito, estava diante da casa de Jorge Amado. Maleta à mão, esperei cerca quarenta e cinco minutos, o que na Bahia é praticamente o tempo médio de um preparo “ fast-food” qualquer. Um guarda surgiu do lado de fora, olhou para mim parecendo que me conhecia. Tive a mesma sensação. Aproximou-se lentamente e com um sorriso amigo sussurrou: "É democrata?". Retruquei: " na mais pura acepção da palavra". A senha e a contra-senha compunham a forma com que Jorge Amado se referia a Castro Alves “Um democrata na mais pura acepção da palavra”. Paguei o restante da propina e passei pelo portão. Com lanterna na mão, ele me levou até a entrada da cozinha. "Fique à vontade. Não precisa ter pressa e sair pela rua acordando as estátuas", disse com um sotaque estranho que não parecia nem de longe baiano mas que por algum motivo parecia familiar pra mim.

Velas em dois castiçais criavam uma atmosfera lúgubre. Poética. Retirei de minha maleta o último vinho que restava e aproximei-me da coleção de copos coloridos. Um estrondo. Meu coração disparou. Alguém surgiu de dentro do armário da cozinha. Olhos atentos. Sorriso no rosto. Poesia nos lábios: " Que coisa! Quem diria! Trinta e cinco quilômetros em hora e meia...Antigamente a gente levava dois dias, a cavalo....". Até cair a ficha que eu já havia lido aquele trecho em “Gabriela”, eu já tinha caído sentado na cadeira da cozinha.

Ele apanhou três copos e sentou-se ao meu lado. "Estou acostumado a beber com a Zélia, mas é cachaça, como hoje espero a visita de um amigo seu vinho vai cair muito bem", confidenciou Jorge Amado. Poucos minutos depois, o poeta levantou-se para atender a porta. "Meu grande amigo brasileiro" saudou o visitante com um forte abraço. Era o escritor Pablo Neruda. "Faz tempo que a gente não se encontra” meu conterrâneo questionou o chileno com um sorriso de deboche.

Em algumas férias, Pablo costumava visitar o amigo na Bahia. Mas fazia questão de levar os vinhos de seu país. "São os melhores", repetia toda vez que uma garrafa era aberta durante o almoço ou jantar preparado por Zélia Gattai. Certa vez, Jorge Amado resolveu pregar uma peça no amigo. Comprou vinho brasileiro de garrafão e encheu garrafas com rótulos chilenos. "Quanto você quer apostar que ele nem vai perceber?", perguntou à esposa. Risadas. Na quarta taça, Pablo fez um brinde especial: "Aos vinhos chilenos. Isso sim é que é vinho, no Brasil, vocês deveriam produzir apenas cachaça". Zélia e Jorge se entreolharam e caíram na gargalhada. "O que foi?", indagou o poeta, ressabiado. "Isso é vinho brasileiro... E dos mais ruinzinhos", entregou Jorge. "Então, um brinde aos brasileiros", contornou Pablo, rindo com os dois.

"Você sabia que nós estamos entre os maiores exportadores de vinho do mundo? Já ouviu falar dos Chatôs Chilenos?". "Não, mas vamos descobrir depois de tomarmos o vinho que nosso amigo trouxe do Vale do São Francisco", respondeu Jorge. A garrafa se foi praticamente em um piscar de olhos quando, então, o poeta abriu um armário e retirou os mais prestigiados vinhos do Chile. Na sexta garrafa, Jorge cometeu a ousadia de interromper Pablo enquanto ele divagava sobre os mistérios do mar. "Esse negócio de Chatôs Chilenos não está com nada", disse, fitando a ilustração da mulher nua em seu copo. "Por que não?", indagou o poeta, surpreso. "Já ouviu falar dos Castelinhos vermelhos aqui do Brasil? ", indagou Jorge. Sorriso maroto. Pablo riu e improvisou uma poesia. Era a melhor descrição de uma mulher que eu jamais ouvira. "Você está falando da minha Gabriela", brincou o baiano, colocando sua garrafa de cachaça sobre a mesa. E emendou: "Agora vamos tomar do meu Chatô". Todos nós caimos na gargalhada. "Um brinde às brasileiras", adiantou-se Pablo, elevando o copo com a mais pura “Cana de Ilhéus”..

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte IV

Não gosto e não concordo com boa parte do sistema democrático de governo, mas a democracia ainda é o melhor modelo que conheço. Enquanto filósofos e estudiosos do nosso tempo não encontrarem outro sistema, devemos ficar sujeitos às coisas boas e ruins da democracia como, por exemplo, políticos. Uma categoria que nada parece aplacar a sua sede de poder.

Apenas um adjetivo identifica todos eles como membros de um mesmo espécime, independente de época, partido político ou país revelando o nome do mestre: maquiavélico. Teria sido Nicolau Maquiavel um homem tão terrível? Ao me aproximar de seu túmulo, na Santa Croce, eu já havia bebido com Dante, Michelangelo e Galileu. Para cada um deles, um estilo de vinho. Com o autor de A Divina Comédia, um Amarone feito por seus descendentes. Um honesto Brunello tinha revelado o gosto questionável de um dos artistas mais sensíveis do renascimento e um Chianti Classico levado luz aos olhos do pai da Física.

Para Maquiavel, reservei um super-toscano. A introdução de uvas estrangeiras em um corte italiano denunciava que alguns produtores fizeram alianças com o inimigo para cativar o gosto dos enófilos, mesmo que o preço tenha sido uma punhalada na tradição. Ou seja, praticaram as lições de O Príncipe, obra-prima de Maquiavel, escrita em 1513.

Apanhei o livro e me preparei para dar os passos finais, que me colocariam face a face com o pai da Política moderna. De repente, a luz do meu candelabro se apagou. Uma voz agonizante cortou o silêncio seguido por milhares de gritos, lamentos, gemidos. Acendi novamente a chama e olhei para a urna funerária de Maquiavel. Um homem, sentado sobre ela, estava concentrado mostrando a sisudez de sua face. Era Adolf Hitler. Desarrolhei um "Ornellaia" e servi apenas minha taça. Vinho é uma bebida que exige companhia, mas, em certos casos, deve prevalecer o ditado: "Antes só do que mal acompanhado". Quando me viu empunhando a taça, o abstêmio mais cruel que a humanidade jamais conheceu ergueu-se e ameaçou um discurso, mas desapareceu na escuridão como exorcizado ao ver o vinho refletir a luz. Sorri com a ironia: A personificação da maldade derrotada por uma taça de vinho.

O túmulo era ornamentado por uma escultura de mulher. Nas mãos de pedra, um perfil de Maquiavel. Como seu vizinho na basílica, o poeta Dante, o primeiro grande pensador da era moderna também tinha sido exilado por razões políticas. Enquanto degustava o primeiro gole, abri aleatoriamente o livro e li a citação: "É melhor ser temido que amado". Observei calmamente um homem sair do esquife- já havia bebido muitas taças de vinho -. "Obrigado, você me libertou. Desde que cheguei aqui, um maluco bloqueava minha saída, ora em silêncio, ora proferindo discursos inflamados. Este último era um dos piores", desabafou. Servi-lhe uma taça do "Ornellaia". "É um belo vinho, mas não tem o gosto da minha terra. Isso me lembra o exílio. Apesar da distância, os aromas e os sabores de alguns vinhos me traziam de volta para cá", revelou.

Nicolau narrou episódios saborosos da história. Eu não conhecia a maioria e desejei não ter bebido tanto. Mas, em sua voz, os personagens desfilavam diante de nossos olhos. "Vamos percorrer a cidade", convidou-me. Deixamos Santa Croce. Ao passarmos diante da Galleria degli Uffizi, os homens mais ilustres da cidade deixaram os postos de estátuas ornamentais e aproximaram-se de Maquiavel. Antes de cumprimentá-los, ele me disse: "Nada faz o homem morrer tão contente quanto o recordar-se de que nunca ofendeu ninguém, mas, antes, beneficiou a todos". Contrariando o próprio conselho, Nicolau tinha se tornado um dos homens mais amados da Itália.

O passeio havia acabado.

Na manhã seguinte, estava a caminho da estação de trem, quando pessoas apressadas, em trajes estranhos, passaram por mim. Uma delas se deteve e me olhou, assustada. "Onde você está indo?", questionou. "Bahia", respondi rispidamente, diante da insolência. "Justo agora! Savonarola será queimado na praça", justificou correndo para alcançar o grupo.

Continuei meu caminho, não desejava presenciar o reformador dominicano arder na "fogueira das vaidades", criada por ele mesmo. Eu levava na bagagem o melhor da Itália e de volta, “Gabriela” e um vinho produzido no Vale do São Francisco que não ousei abrir por não estar na temperatura correta o que me tornaria, no mínimo, maquiavélico.

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte III

“No entanto, ela se move”: Teria sussurrado Galileu, depois do julgamento no Tribunal do Santo Ofício.

Condenado a negar publicamente suas teses, o cientista teve a prisão decretada pela Santa Sé. Para os homens da época, as idéias de Galileu eram mais do que a negação das Sagradas Escrituras. Eram a prova de que Deus tinha relegado seus filhos a um segundo plano. A Terra se movia ao redor do Sol, submissa e dócil. Essa conclusão fazia de Galileu não apenas um excelente cientista mas um homem cruel que tirava da humanidade o prazer de habitar o centro do universo. Mas poucos sabiam que atrás daquele homem escondia-se um apreciador de vinhos.

As correspondências com o discípulo Benedetto Castelli traziam, entre observações científicas, comentários sobre queijos e a descrição – com notas e tudo mais que constumamos fazer nos dias de hoje – dos melhores vinhos da época. Isso mesmo, além de pai da Física moderna, Galileu pode ser considerado o pai dos sistemas atuais que usamos para classifica em número a qualidade da bebida mas , sou capaz de apostar, não era um enochato.

Ao aproximar-me do túmulo de Galileu, na Santa Croce, após um rápido encontro com Michelangelo, abri o livro Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Universo, uma garrafa do “Chianti Classico Castello di Brolio”, duas taças e muitas respostas. “Eppur su Muove”: a frase, possivelmente apócrifa, estava inscrita no mármore. Acima, erguia-se o busto de Galileu com os olhos no Firmamento, a mão direita segurando uma luneta e a esquerda repousando sobre uma esfera. Era o testemunho de que a verdade científica tinha triunfado sobre o fanatismo religioso, no entanto, ele só foi oficialmente absolvido pela Igreja Católica 341 anos após sua morte, ou seja, em 1999.

Folheei o livro escrito por ele. “O que Galileu acharia das Leis de Newton? E da Teoria da Relatividade? E a física quantica ?” questionei abrindo a garrafa de vinho. Ao observar o líquido dançar na taça, lembrei que o termômetro estava entre as inúmeras invenções do cientista. Em sua versão primitiva, o instrumento levava vinho no bulbo, em vez de mercúrio.

Silêncio.

Já havia bebido duas taças e estava pronto para deixar o lugar quando fui surpreendido por uma voz grave: “Quem está aí?”.

“Quer um pouco de vinho?”, estendi a taça na direção daquele homem que após tatear o espaço vazio segurou-a com firmeza parecendo guiar-se unicamente pela minha voz e totalmente indiferente à fraca iluminação do candelabro.

A morte não havia curado a cegueira do célebre cientista. Fiz uma pequena reverência ao concluir que estava diante de Galileu. “O vinho é composto de humor líquido e luz”, disse-me. Em seguida, girou a taça e sentiu os aromas do vinho. “Glorioso, divino!”, exclamou. Após degustá-lo, caiu na gargalhada. “Luz. Sempre soube que o vinho era milagroso, mas que frasco esquisito”, concluiu examinando a garrafa nas mãos com uma expressão de encantamento nos olhos.

"É, respondi, na verdade a garrafa deveria ser quadrada e áspera pra facilitar a... ". Sem graça, silenciei-me em minha ignorância.Ele prosseguiu: “Os homens são como frascos de vinho. Examine os frascos em uma taverna, antes de beber vinho tinto. Alguns quase não têm decoração. Estão empoeirados e despojados... Mas cheias de um vinho que inspira os bebedores a cantá-lo chamando-o de glorioso e divino. Depois, repare em outros frascos com lindos rótulos. Ao experimentá-los, você vai ver que estão cheios de ar ou perfume. Esses frascos só servem para se urinar dentro deles”.

Aquela genialidade e bom humor me fizeram rir, imaginando as garrafas nas quais urinaria e as pessoas “cheias de ar” que conhecia. “De onde você vem?”, questionou Galileu. “Do futuro”, respondi, desconhecendo resposta mais apropriada. “Como isso é possível?”, indagou incrédulo. “No mesmo ano da safra deste vinho, você foi absolvido pelo papa”, revelei a ele. “O papa sabia que eu estava certo. Meu julgamento foi uma encenação. Quer prisão melhor do que a minha? Cinco aposentos com vista para os jardins do Vaticano e um mordomo para cuidar das refeições e do vinho”, disse, referindo-se à sua “dura” pena. “Minhas idéias prevaleceram?”, prosseguiu ansioso. “Grandes cientistas apoiaram-se nelas. Um deles afirmou: ‘Se pude ver mais longe foi por estar sobre o ombro de gigantes’. E você era um deles”, respondi. Ele sorriu.

Passos na escuridão. Dois homens inconfundíveis aproximaram-se. Isaac Newton e Albert Einstein saudaram Galileu: “Gênio, Gênio”. Após apresentar os três, o autor da Teoria da Relatividade explicou aos antecessores os avanços da Física. Afastei alguns passos. Um estrondo na direção dos cientistas atrapalhou minhas divagações. Observei com assombro Newton e Einstein diminuírem de tamanho, e Galileu transformar-se em um gigante de oito metros de altura. Ele colocou os dois cientistas sobre seus ombros, pegou a luneta e passou por mim apressado, cantarolando “Eppur su Muove”. Lembrei de meu amigo gigante, André Martin. Levantei um brinde a eles, abri minha maleta e deparei com as duas últimas garrafas de vinho e o livro O Príncipe.

Eu ainda tinha uma visita a fazer antes do deixar o local.

Pausa para "prosiá" sobre "Viti-curtura!"e outras cousas mais

Algumas perolas que recebi de bons amigos e do Forúm.

Viti-curtura!
Degustação de vinho em Minas - Luiz Fernando Veríssimo

- Hummm...
- Hummm...
- Eca!!!
- Eca?! Quem falou Eca?
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...
- Putaqueupariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo ?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Cêbêsta sô, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é ?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende?
Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi é nada e nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincanu com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de metê um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovidu, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é trêis! Num corre, não, fiudaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!...

Esse cara já sabia o que era bom !
O Faró Tutancamon era consumidor de-vinho

Vale a pena ver de novo!
Pra quem nunca viu ou quem já viu rever esse video muito legal

Obrigado Miriam, Andre e Ana pela contribuição.

Abraços

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte II

Ninguém sequer imagina atribuir a Jesus Cristos, características como impiedoso, severo e vingativo, exceto uma pessoa: O genial e contraditório Michelangelo.

Ele descendia de uma família aristocrática, mas após semanas exaustivas de trabalho, com suas roupas sujas e com um terrível odor, poderia facilmente ser confundido com um indigente. Era profundamente religioso, mas não dava importancia a autoridade do Bispo de Roma. Uma vez foi contrariado, fugiu do Vaticano à noite cavalgando rumo a Florença. Retornou à Santa Sé após a insistência de Júlio II. Como um autêntico renascentista, dedicou-se a diversas artes. Aventurou-se pela poesia e escreveu Coletânea de Rimas, porém sua maior inspiração não estava na pena de escritor, mas em blocos de mármore.

"Eu vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo", teria dito uma vez. Quando o Papa quis transformá-lo em um pintor e encomendou a ele a Capela Sistina, Michelangelo extraiu dos pincéis uma das mais belas poesias que o mundo já contemplou.

Com umas páginas extraídas da internet sobre arte renascentista, um "Brunello de Montalcino ", duas taças e uma pergunta, aproximei-me do túmulo de Michelangelo na basílica de Santa Croce, após um encontro com Dante Alighieri minutos antes.

Era noite e o interior da igreja estava escuro. Com meu candelabro iluminei o esquife de Michelangelo, criado por Giorgio Vasari. Três lindas mulheres esculpidas em mármore sobre a urna funerária representavam a Arquitetura, a Escultura e a Pintura. Tinham uma expressão triste no rosto. A morte do genial artista deixou as Artes desamparadas. E isso era mais do que uma simples metáfora. Sentei no chão e procurei a página que havia impresso sobre o Juízo Final. Desarrolhei a garrafa e servi o vinho. Rodei a taça com minha mão direita e a elevei para cima, como se estivesse brindando a Michelangelo. O gesto era proposital e imitava uma de suas obras: a escultura de Baco, encomendada pelo banqueiro romano Jacopo Galli, em 1497. Apreciei os aromas complexos do vinho com os olhos na expressão impiedosa de Jesus Cristo. Logo abaixo do Filho de Deus estava São Bartolomeu, segurando a própria pele com a mão esquerda. Eu havia lido que o Santo que foi esfolado vivo e depois decapitado era na verdade um auto-retrato do artista. Senti no paladar a estrutura e a maciez do vinho. Seus taninos pareciam contraditórios e instigantes como Michelangelo.

Risos.

A Arquitetura, a Escultura e a Pintura não eram mais pedra triste. Deixaram o túmulo e estavam ao meu lado. Seus olhos brilhavam, contemplavam algo que eu não conseguia ver... Até que um homem com as roupas sujas de tinta e um odor forte de suor surgiu diante de nós. "Tanto tempo adormecido... o que você tem nessa taça?", perguntou. "Vinho", respondi, servindo-o na outra taça. "Mas que porcaria é essa?", cuspiu no chão. Fiquei assustado. Eu sabia que Michelangelo passara dias consumindo apenas pão e vinho. E que naquela época os vinhos eram transportados em recipientes de chumbo. Provavelmente o artista havia sido envenenado pela bebida - lembrei do meu amigo Holmes. Talvez sua reação fosse instintiva, sem nenhuma relação com a qualidade daquele Brunello.

"Esse é um dos melhores vinhos da região", respondi-lhe. "Não é melhor do que o vinho que eu bebia na taverna quando trabalhava em Roma, pintando o teto do Papa", desafiou-me. E contou que certo dia Sua Santidade exigiu que ele acrescentasse mais um anjo em uma das pinturas. Ele obedeceu, embora questionasse o gosto do Papa. No mesmo dia, foi à taverna beber vinho. "Estava uma maravilha, mas outro cliente reclamou que estava estragado e o dono destruiu os barris com um machado. Foi lamentável ver aquele desperdício", disse-me. Eu conhecia bem essa história, mas nem perdi tempo falando sobre os enochatos do mundo moderno. De repente, ele olhou para seu auto-retrato no Juízo Final. "Como se fosse uma velha serpente esgueirando-se/ Por uma estreita passagem/ E perdendo sua velha pele,/ Poderia me renovar,/ Abrir mão de meu estilo de vida e de todos os desejos humanos./ Tenho perfeita consciência de que, quando se está coberto/Com uma pele forte/ O mundo passa a não significar nada.". Ao terminar de recitar a poesia, encarou o crucifixo na nave central da Igreja. "Ele está sorrindo. Agora posso voar até o céu". Estava feliz como uma criança. Antes da viagem, virou-se para mim e disse: "Você tem um péssimo gosto para vinho". As Artes haviam se desvanecido.

Sem nenhuma companhia tomei mais duas taças de Brunello. "Já sei o estilo de vinho preferido de Michelangelo: bouchonné", conclui, aos risos.

Minha pergunta estava respondida,abri minha maleta e vi que restam ainda três garrafas de vinho.

Ainda não era o momento de deixar Santa Croce.

Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte I

Acho foi em “As Mansões Filosofais” de Fulcanelli onde li que os túmulos dos homens sábios possuem um estranho magnetismo. Desde então, cultivo o hábito de visitá-los quando posso. Acredito que estão repletos da "alma" de seus ilustres habitantes. Costumo tocar as pedras sepulcrais na esperança de compartilhar experiências de vida e "absorver" qualidades excepcionais, da mesma maneira que um religioso se aproxima de relíquias de santos para ganhar bênçãos celestes, ou índios canibais devoravam o corpo de pessoas admiradas para "roubar" suas virtudes.

Para estas excentricidades do meu espírito, nenhum cenário mais apropriado do que a basílica de Santa Croce, localizada no berço do Renascimento. A belíssima fachada de mármore, branco, verde e rosa, escondem um interior adornado por capelas projetadas por Giotto, Della Robbia e Brunelleschi e, o mais importante, as sepulturas de gênios como Michelangelo, Maquiavel, Galileu Galilei e Dante Alighieri.

Do nada uma pessoa me interrompe com um sotaque estranho, mas falando em português. "Você sabia que Michelangelo foi sepultado nessa mesa, após ter seu corpo roubado pelos florentinos?". Como desejava estar de corpo presente na Santa Croce sozinho e próximo do silêncio que aproxima os séculos, fiz um esforço para ser amigável e cultivar uma amizade, confesso que por interesse, depois de observar uma insígnia em seu colete. "Você tem a chave daqui?", perguntei, poucos minutos antes de acabar o horário de visitação. "Sou um dos anjos-guardiões", gabou-se ele. "Estudo geometria sagrada e gostaria de fazer algumas medidas e observações. Mas preciso de sossego. Você me entende?", confidenciei-lhe. "Estamos falando de 300 euros", afirmou sem rodeios, para meu espanto. Negociamos a cópia das chaves em 250 euros e um botton da bandeira do Brasil que sempre levo para presentear os aficionados pelo exotismo tropical.

Horas depois, eu ingressava na Santa Croce com um candelabro, cópias de “A divina Comédia”, outra de “Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Universo”, “O Príncipe”, “Gabriela”, umas páginas impressas da internet sobre obra renascentista e uma maleta de degustação com quatro rótulos italianos e um brasileiro cuidadosamente selecionados e com as taças apropriadas. Senti-me atraído para o túmulo de Dante, autor de A Divina Comédia. Exilado de sua terra natal em 1302, após seus partidários políticos, os Bianchi, perderem uma disputa para os rivais, os Neri, o poeta morreu e foi sepultado em Ravena. Florença quis resgatar os restos mortais de seu filho ilustre e construiu um imponente sepulcro em Santa Croce. Mas seus ossos nunca foram transladados para lá. Abaixo daquela imensa estátua de Dante, havia uma urna vazia. O monumento fúnebre expunha uma mágoa de séculos. O rosto da escultura, iluminado pela luz amarelada da vela em meu candelábro, revelava uma tristeza sombria. Desarrolhei a garrafa de "Vaio Amaron", vinho produzido pelo conde Pieralvise Serego Alighieri na propriedade Casal dei Ronchi, em Gargagnago, adquirida, em 1353, por um dos três filhos de Dante, na região de seu exílio.

Sentado no chão, sorvi o primeiro gole daquela bebida concentrada, complexa e aveludada, lendo o verso inicial da obra-prima do poeta: "Nel mezzo del cammin di nostra vita/mi ritrovai per una selva oscura/che la diritta via era smarrita./ Ahi quanto a dir qual era è cosa dura/esta selva selvaggia e aspra forte/che nel pensier rinova la paura!/ Tant'è amara che poço è più morte;" (Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível...). Ouvi um longo suspiro. Fui surpreendido por um homem todo vestido de vermelho. Cabeça coberta e emoldurada por uma coroa de louros. O rosto era inconfundível. Eu estava diante do poeta Dante.

"Onde estou?", questionou-me surpreso. "Em Florença", respondi-lhe, oferecendo-lhe uma taça do vinho de seus descendentes. "Finalmente voltei para casa", disse-me, sorrindo. Durante horas, o poeta me contou a saga iniciada no momento de sua morte, quando foi arrastado para o mundo que ele próprio criara. Falou com detalhes sobre cada um dos nove círculos do inferno e do purgatório. E da ansiedade em chegar ao Paraíso. Fez uma longa pausa assim que terminou a quarta taça do Amarone. "E como é o Paraíso?", questionei curioso. Sem dizer nada, ele abriu outro largo sorriso. Seus olhos, distantes no tempo e no espaço. "Minha Beatriz... Estou pronto. Podemos ir", disse, desaparecendo subitamente. O poeta partia com a musa que conhecera aos nove anos e pela qual nutrira uma paixão platônica por toda a vida.

Reconciliado com sua cidade e de braços dados com sua alma gêmea, Dante havia chegado ao próprio paraíso.

Eu, na terra, ainda com 4 garrafas.

Série Encontros Inusitados: (Re)encontro


Mrs Elizabeth Fleming McTarry, ou “M”, como ela mesmo assinava suas correspondências, havia me indicado um restaurante nos arredores de Londres onde havia uma confraria com degustações semanais e ofereceu seu carro para que eu fosse em seu lugar já que no dia do evento seu marido Ian ia ler para um publico seleto de editores e escritores um capítulo do seu novo livro: Cassino Royale.
Ao chegar, tomei meu lugar no restaurante onde participaria de uma degustação às cegas e não pude deixar de notar um inglês de perfil aquilino, alto, magro que sentara ao meu lado que sem preâmbulos me disse: Preciso de sua ajuda, não entendo absolutamente nada de vinhos apesar de ter acurada percepção olfativa. Nunca estive em uma prova de vinhos antes.

Éramos cinco. Depois de recebidas as fichas de avaliação começamos o ritual em profundo silêncio e concentração. Após as provas, vieram as considerações, uma a uma:

O primeiro, um francês, afirmou que o primeiro vinho era um Malbec da região de Cotes-du-Rhône da safra de 1997 com mais concentração tânica que o normal. O segundo ele considerou ser um Cabernet Sauvignon da região do Languedoc da safra de 1999 com talvez um corte de Shiraz, o terceiro vinho um assemblage de Vannières 1995. O quarto vinho era sem dúvida um Cabernet Franc e o quinto um Bordeaux com aromas de mofo.

O segundo A. Doyle, concordou que quinto vinho era um Bordeaux de baixa qualidade e que derveria ser evitado. Quanto ao assemblage, discordava, era Domainde d´Ott e não um Vannières. O primeiro vinho seria um Ventoux de safra medíocre e o segundo um Hermitage esplendido de 98.

O terceiro outro francês decepcionou a todos dizendo que eram apenas tintos simples de mesa.

Paramos para um típico "coffie brequê" , quando na volta meu colega inglês tomou a palavra e disse:

" O primeiro vinho, vinho de maciez admirável, boa concentração de tâninos de qualidade, aromas mentolados com toques de ervas é um Merlot. O Segundo é um assemblage com prováveis 65% de Shiraz em sua composição adicionados aos 15% de Crenache, 10% de Carignan e 10% de Cabernet Sauvignon. O terceiro vinho é experimental da uva Syraz feito sob microvinificação sem aromas definidos ainda, bastante jovem. Finalmente o quarto vinho é um Carbert Sauvignon de 1990, Cinsault, muito bem elaborado e de ótimo acabamento. O quinto vinho é realmente um Bordeaux ordinário.

Com exceção do Bordeaux todos são de Languedoc, Village Saint-Efigênia, produzidos por M Blackwood, nosso companheiro aqui presente."

Entusiasmados, aplaudimos de pé.

Dando uma carona pra ele no carro de Ms Fleming, depois de meus incansáveis apelos ele explicou: Quando percebi que Blackwood era um produtor, aproveitei o intervalo e acessei via o site da vinícola. Como ele só tinha quatro vinhos eu deduzi que um dos vinhos não era dele e como ninguém é estúpido de levar um vinho melhor que os seus, só podia ser o Bordeaux que os outros degustadores haviam identificado ao notar o aroma de mofo. Depois disto, usando as fichas técnicas, foi fácil identificar os quatro pelos aromas, que como você sabe é minha especialidade.

Você disse que pelas unhas, pelos dedos, pela roupa e pelo sotaque, consegue identificar uma pessoa, mas Blackwood é um homem de mãos finas, sotaque parisiense, ruivo e alto, bem típico do norte da França. Como é que você descobriu que ele era um produtor?

“Elementar meu caro, ele era o único que parecia não entender de vinho"

E assim me despedi dele, deixando-o em frente a sua casa no 221 da Baker Street, nunca mais vi meu amigo Sherlock Holmes.

Série Encontros Inusitados: Lord Nelson


Foi difícil deixar Portugal, mas a curiosidade de rever Mrs Fleming McTarry pessoalmente e passar a virada do ano olhando o Big Ben foram mais fortes. Então, após uma semana bem vivida, me despedi de Portugal e embarquei no Eurostar cheio de nostalgia. Achei uma brincadeira de mau gosto ao chegar à fatídica ilha e deparar com uma estação chamada Waterloo. O deboche não combina com a ironia refinada atribuída aos ingleses. E certamente as qualidades aristocráticas dos súditos da realeza não estavam presentes quando Napoleão Bonaparte perdeu a guerra no campo de batalha de Waterloo, a julgar pela piada sobre a posição indecorosa. Sem nenhum decoro, meus pés pisaram em Londres, e pisotearam a memória do imperador francês.

Precisava me instalar na casa de Mrs. Fleming o mais rápido possível, pois o reveillon estava próximo e não queria perder a “virada” na Trafalgar Square.

A julgar pela pontualidade britânica, nenhum lugar mais preciso para acompanhar a passagem do ano do que com os olhos no Big Ben. Fui recebido pela minha anfitriã – hoje, esposa de Ian Fleming, um escritor de romances policiais sem muito destaque - com uma xícara de chá na mão. "Aqui se bebe chá preto com um pouco de leite", ensinou-me Ms. Fleming, instilando em mim o desejo de conhecer mais sobre a bebida. Podem criticá-los à vontade, mas reconheço a arte inglesa de se apropriar do prazer alheio e apreciá- lo como ninguém. É uma herança imperialista que lhes confere uma aura de elegância impagável. Produzem um vinho de qualidade sofrível, mas degustam melhor do que qualquer outro povo os Grands Crus Classés de seu vizinho. E qual é a primeira pessoa que vem a mente ao se pensar em puros habanos? O primeiro-ministro Winston Churchill. Apreciador de champagne, talvez ele tenha parafraseado o imperador Napoleão Bonaparte inúmeras vezes durante o desarrolhar da Segunda Guerra Mundial: "Nas vitórias é merecido, nas derrotas, necessário".

Após mais alguns minutos de conversa com Ms. Fleming, parti para a Trafalgar em um clássico táxi preto. No percurso, constatei que havia me esquecido de um detalhe fundamental. Uma garrafa de champagne seria indispensável para a comemoração.

Lembrei-me de ter visto uma loja de bebidas na estação de Waterloo e segui para lá. Tive a sorte de encontrar uma meia garrafa de "Moët & Chandon Brut Imperial". A ironia me acertou em cheio. Apesar de estar em "Waterloo", eu segurava em minhas mãos um tesouro francês. Era uma pequena vitória sobre a arrogância inglesa. Fui para a Trafalgar sorrindo de contentamento. Milhares de pessoas preenchiam as ruas em torno da praça.

Aguardavam a meia-noite com garrafas de cerveja. Escondi minha pequena champagne no casaco e esperei os fogos de artifício. Achei estranho quando recebi "Happy New Year" de dezenas de pessoas. Apenas uma pequena luz vermelha atravessou o céu turvo. Só percebi que ainda estava no século XXI quando olhei no relógio de pulso. Que decepção! Percebi alguém no pináculo central da praça sorrindo para mim.
Era Lord Nelson, o almirante inglês que "derrotou" Napoleão. Nunca o ditado: "Quem ri por último, ri melhor", tinha feito tanto sentido pra mim até aquele momento.

Abri o champagne ao som da "Sinfonia Nº3", de Beethoven em minha mente.

Série Encontros Inusitados: Pessoa


Recomposto da ameaça de Irache, decido por encerrado meu expediente de Indiana Jones tupiniquim em direção a Santiago de Compostela quando encontro dois portugueses na volta para Paris, Senhor Ramos, que me convenceu a viajar de carro para Portugal ao invés de usar o trem. Ele dirigiria um trailler gigantesco com três camas, que deixaria em sua terra natal, e eu o seguiria em um mini , acompanhado por Tavares, um intelectual que não sabia dirigir e adorava divagar sobre os poemas de Fernando Pessoa e, o mais importante: “pagaria as despesas”.

Após uma noite de insônia, parti para Portugal. Cruzamos Bordeaux com apenas uma parada para o almoço (não, eu não tomei vinho), e atravessamos a Espanha. Ramos quis parar para dormir. Eu estava exausto, mas Tavares me convenceu a prosseguir a viagem "Boa é a vida, melhor é o vinho" (Fernando Pessoa), com a condição de que descansaríamos no carro assim que cruzássemos a fronteira. Quando chegamos a Portugal, eu já era íntimo de Fernando Pessoa e tinha sentado no divã com todos os seus heterônimos. Quase não chegamos à aldeia. Acordei com Tavares dormindo e o carro em direção a um despenhadeiro. Consegui evitar o acidente saltando sobre o volante e patinando na pista. "O que aconteceu?", Tavares acordou assustado. "Você baixou o freio de mão. Quase morremos", respondi irritado. "Que a morte me desmembre em outro, e eu fique/ Ou o nada do nada ou o de tudo/ E acabo enfim esta consciência oca/ Que de existir me resta". Ignorei os outros versos de "Temor da Morte" (Quarto Tema), que Tavares recitou antes de adormecer.

Aromas de grama molhada, toques animais e notas de tostado prenunciaram a chegada na pequena aldeia. E despertaram Tavares. As casas eram simples e encantadoras. As pessoas tinham doçura no olhar. "Aqui, todo mundo é parente da vidente de Fátima. Mas minha esposa é a única pessoa que pode visitá-la no hospital, além do papa e do bispo", confidenciou-me Tavares. Por mais fascinante que a história pudesse ser naquele momento eu só queria uma cama bem arrumada. Somente no dia seguinte tive forças para visitar Fátima, junto com Ramos, que havia se reunido a nós. Apenas uma única árvore lembrava o bosque original onde Lúcia e seus colegas receberam os três segredos da mãe de Cristo. O resto estava soterrado em várias camadas de concreto. Dizem que quando as pessoas se reúnem para uma refeição, Jesus Cristo está entre elas. Deixei Fátima para encontrar seu filho em uma mesa rústica de madeira, na casa de Tavares, com uma deliciosa "Chanfana" (guisado com carne de cabra e vinho), preparada por sua esposa. Após a refeição e alguns copos de vinho "da casa", Tavares me olhou, esboçou um sorriso e disse: "Segundo Fernando Pessoa, ´Boa é a vida, melhor é o vinho´. Quero abrir uma garrafa especial para comemorar a sua presença".

A mesa estava repleta de doces conventuais e o aroma adocicado de ovos e baunilha inundavam a casa. "Muito melhor do que uma tábua de queijos fedorentos. Você não acha?", provocou Ramos. Mal pude acreditar quando Tavares voltou com uma garrafa de Porto e outro Madeira. Enquanto apreciava na pequena taça de cristal, perdi a revelação inédita do Terceiro Segredo de Fátima - na época, a Igreja Católica ainda não o tinha anunciado -, e piadas sobre os vinhos franceses de Sauternes. Degustei o vinho gota a gota, como um prêmio após quase vinte e quatro horas de estrada e um triunfo sobre a morte. Quando voltei a mim, percebi o desconsolo no rosto de Ramos. "O que houve?", indaguei suspeitando de que ele não tivesse apreciado a bebida, apesar de estar com a taça vazia nas mãos. "Oras, pois... esquecemos a melhor parte: O brinde !"

2016: O ano das Olimpíadas


Em fevereiro de 2016, as Olimpíadas serão realizada aqui, no Rio de Janeiro, pela primeira vez. Infelizmente, ela será a mesmo velha e chata monotonia de eventos que tirando os esportes mais populares só vai servir mesmo pra gente que não tá nem ai pro seu próprio quintal bater no peito e dizer que tem orgulho de ser brasileiro - Isso é uma vergonha. Tirando meu mau humor quando se trata de vestir a camisa da seleção e ouvir gritarias histéricas país afora não posso negar que isso pode ajudar a imagem do país e de alguns dos seus produtos.

Claro que não vou perder a oportunidade de dizer meu recado aos produtores de vinho mesmo que sequer passem perto desse blog, mas vai que um dia numa " googlada" eles caem por aqui.

Eu sinto que nosso vinho tem sido seriamente negligenciado pelo COI e podemos usar esse evento para mostrar nosso vinho nacional.

Como todos vão estar com a cabeça voltada para os esportes, podemos usar a mesma linguagem e pela orla carioca desfilar modalidades esportivas como:

Prova de Velocidade

Concorrentes, usando patins, parando a cada meia volta para provar e identificar uma série de vinhos. O atleta que concluir o percurso no menor tempo ganharia mais tempo para degustar, mas as sanções seriam aplicadas por cuspir e não conseguiu identificar um vinho.

Prova de vinho com Pão

Depois de consumir 3 garrafas de Merlot nacional, concorrentes descem pelo cabo do bondinho do Pão de Açúcar.

A prova do Cristo

Depois de beber 6 garrafas de Merlot nacional, concorrentes sobem até o Cristo Redentor para serem recebidos com espumante nacional.

E por ai vai...

Série Encontros Inusitados: A ameaça de Irache


Com mochila nas costas e cajado na mão, resolvi trocar os prazeres da boa vida pelo estoicismo dos cristãos medievais. É com esta imagem que começo a peregrinação até Santiago de Compostela.

Quanto aos vinhos, não espero cruzar com nenhum rótulo prestigiado das regiões produtoras que vou atravessar especialmente Rioja. Talvez vinhos rústicos de família, servidos em jarros de barro ou garrafas reutilizadas inúmeras vezes.

Após alguns dias de caminhada e refeições à base de carne, peixe e massa, eu chego a um dos pontos considerados emblemáticos pelos caminhantes, a "Fonte de Irache", construída em 1991 pela bodega do mesmo nome com a intenção de oferecer aos peregrinos, gratuitamente, todo o vinho que pudessem beber. Basta abrir uma das duas torneiras - a outra é de água - e se deliciar diretamente na fonte. Quando a esmola é demais o santo desconfia. Não tenho nenhuma pretensão de degustar um vinho excepcional de Navarra, ainda mais naquelas circunstâncias. Isso não me impediu de ficar imensamente infeliz ao perceber que não havia vinho nenhum jorrando lá. E ainda mais após ler um comunicado pendurado na parede, alertando aos passantes que para chegar com saúde a Santiago deveriam provar o vinho de Irache. Cético, claro, não acredito na ameaça e ignoro os vinhos em lata comercializados em uma antiga geladeira de coca-cola.

À noite, após deixar Irache e caminhar todo o dia praticamente sem descanso percebo que se tivesse comprado uma latinha de vinho, talvez tivesse sido poupado de uma lesão no joelho esquerdo e de dezenas de bolhas nos pés que quase acabaram com essa minha aventura.

Com bolhas e sem vinho vou adiante, rezando para que nada de mal me aconteça. Mas a benção - ou maldição - do vinho parece me acompanhar dia-a-dia. O ditado "com pão e vinho se faz um bom caminho" parece slogan publicitário das vinícolas espanholas que estão na rota de peregrinação, mas transcende o hábito moderno da degustação e encontram respaldo nas características medicinais da bebida, já observadas pelo grego Hipócrates, centenas de anos antes de Cristo. "O vinho é uma bebida substancialmente maravilhosa apropriada ao homem, na saúde e na doença, se o administrarmos na justa medida, segundo a constituição de cada um", disse o pai da medicina. Mas, como disse o dramaturgo Eurípedes, conterrâneo de Hipócrates, "o vinho foi dado ao homem para acalmar suas fadigas". E eu, um enófilo penitente, pretendia ter forças para pagar todos os meus pecados - incluindo os da gula - e me livrar da ameaça de Irache a qualquer custo.

Com refeições ainda à base de carne, peixe, massa e vinhos que animam o corpo e desanimam o espírito, chego a um vilarejo chamado Bercianos del Camino, tão pequeno que poderia ser atravessado de ponta a ponta em poucos minutos. Na chegada, sou saudado por um homem sorridente que me conduz ao único albergue do pueblo. É o hospitaleiro. Muito religioso, disse que o pagamento é donativo e a refeição, comunitária. No único armazém existente, cometo uma heresia e compro um vinho em embalagem Tetra Pack, a única opção disponível. Na "sala de jantar", duas mesas de madeira são compartilhadas por dezenas de peregrinos. Fico assustado com a quantidade de Tetra Packs. Antes do "banquete", orações em espanhol e a tradicional canção do peregrino entoada em francês. Logo, pratos de salada e macarronada com pedaços de embutidos, preparados pelos hospitaleiros, circulam entre pessoas famintas.

Ressabiado, aceito em um copo de plástico a "dádiva de Dionísio". Imaginei que o deus grego estivesse no Olimpo dando gargalhadas da minha sorte. Mas sua alegria durou pouco. No primeiro gole, aquele vinho parecia mais elegante do que o "Château Margaux ". Na sobremesa, era melhor do que o mítico "Chateau d´Yquem ". O caminho de Santiago de Compostela é cheio de histórias misteriosas, de encontros com anjos e demônios e dos mais diversos milagres. Hoje, eu acredito ter participado de um milagre.

Série Encontros Inusitados: Santô


As crianças têm amigos invisíveis. Sentem prazer em "possuir" uma amizade exclusiva e não compartilhá-la com ninguém. Nem com os pais. Também tenho meus amigos invisíveis, meus encontros inusitados. Às vezes, degusto vinhos com Holmes (Sherlock) e fumo charutos com Winston (Churchill).

Na última semana, troquei todos eles pela companhia do genial Alberto Santos-Dumont, ou Santô, como dizem os franceses.

"Prefiro os balões. O vôo é mais tranqüilo", confidenciou-me Alberto. E aproveitou para contar sobre seu primeiro passeio aéreo, ao lado do balonista Alexis Machuron, aos 24 anos. Assim que ele ouviu os sinos do Ângelus lá embaixo, anunciando o meio-dia, disse ao seu guia: "Está no horário do almoço". Para surpresa do francês, o brasileiro retirou da mala ovos cozidos, rosbife, frango, queijos, fruta, sorvete, doces. "Deve ser um hábito brasileiro andar com a refeição na mala. Hábito estranho" teria pensado o balonista, antes de se render ao prazer gastronômico. "A melhor parte foi o champagne. Os flocos de neve se formavam nas taças", disse Alberto. Para encerrar o banquete aéreo: licor e café brasileiro.

Eu sabia que, além de inventor genial, Santos-Dumont era um gourmet sofisticado. Em seu apartamento, no Elysée Palace Hotel, ele promovia, para deleite de seus comensais, "jantares aéreos". As cadeiras tinham três metros de altura e, para se sentar, era preciso utilizar uma escada portátil. Durante o banquete, uma pequena aeronave fazia evoluções no teto. "A idéia surgiu de seu primeiro vôo?", perguntei. "A sensibilidade nas alturas é mais refinada. Quis usar esse conceito na gastronomia", respondeu Alberto, para em seguida falar sobre a Baladeuse, o primeiro carro aéreo portátil do mundo. Com ele, o inventor podia sair da frente de seu apartamento e voar até seus restaurantes preferidos. Ele gostava de comemorar suas conquistas aeronáuticas cercado por pratos deliciosos, excelentes vinhos e ótimas companhias. Os maîtres conheciam seu prato favorito: Linguado.

Em nossos encontros em um café ao redor do Elysée Palace Hotel, Alberto estava elegante. O terno escuro sempre impecável. As golas altas e a gravata vermelha. O chapéu Panamá e o relógio de pulso Cartier. "Eu tinha problemas para conferir o tempo de vôo. Desenhei esse instrumento e meu amigo Louis o construiu", disse ele, que ditou a moda em Paris no início do século XX. Reservado, nunca gesticulava. Quase nunca. Certa vez, ele me falou sobre o dia em que contornou a Torre Eiffel com o dirigível nº 6 e venceu o prêmio Deutsch. Gesticulou tanto que notei, em seu braço, uma pulseira com um pingente. "Uma medalha de São Benedito para proteção contra acidentes. Presente da Princesa Isabel" revelou o inventor. Contou-me em detalhes como conheceu a condessa d´Eu, filha de Dom Pedro II exilada na França após a queda da monarquia no Brasil. Em uma experiência com o dirigível nº 5, um vento inesperado e o fim do combustível o forçaram a uma aterrissagem sobre um castanheiro do parque do Barão de Rothschild. "Estou com sede", disse a um jardineiro que surgiu em seu socorro. Minutos depois, os serviçais do aristocrata surgiram com um balde de gelo e uma garrafa de champagne. Enquanto ele se "recuperava" do acidente, algumas pessoas chegaram até a árvore com uma cesta de piquenique. Era um almoço oferecido pela Princesa Isabel, que morava na propriedade ao lado. "Fui agradecer a gentileza", revelou sorridente.

Em nosso último encontro, conversamos sobre nossa infância. "Uma vez ganhei um concurso de pipas. A minha tinha o formato de um morcego e era a maior delas, mas não chegou a voar", contei. "Eu gostava de fazer pequenos balões de papel nas festas juninas", disse Santos, com o olhar distante. Conferiu o horário pelo relógio de pulso. "Preciso ir, tenho um jantar com Aída, la première aerochauffeuse du monde. Você sabia que é para cá, Paris, que as almas das pessoas boas vão quando morrem?", despediu-se, subindo no Demoiselle. Sorri de contentamento após aquela revelação. "Au Revoir, mon ami Santô", despedi acenando. Era em uma Cidade-Luz que eu gostaria de passar a eternidade, talvez não necessariamente Paris.

Com esse pensamento deixei Paris e Santô para trás, decidido a percorrer a pé o Caminho de Santiago de Compostela. Com mochila nas costas e cajado na mão, resolvi trocar os prazeres da boa vida pelo estoicismo dos cristãos medievais.

* O desenho do livro "Santos-Dumont", do cartunista Ruy Jobim Neto, mostra uma das inusitadas cenas do aeronauta que gostava de tomar café e estacionar seus balões no meio das avenidas parisienses.

Um ano de Vinho e Bom Senso


Como a maioria dos tecnólogos, matemáticos e interessados em Cosmologia, deixei a religião de lado para procurar, nas estrelas, respostas às crises existenciais e as dúvidas mais pertinentes a filosofia do que a Freud.

Em um momento meu espírito voou em outras direções. Na Índia, quase foi devorado por Kali, a deusa da morte. Partiu a tempo de participar da Hajj, a peregrinação anual a Meca. Por pouco não foi pisoteado pela multidão de muçulmanos. Conseguiu se esquivar e encontrou por lá o Cardeal Richelieu: "Se Deus tivesse proibido o vinho, por que o teria feito tão saboroso?", disse, com sorriso irônico.

Meu espírito procurou outros ares. Na China, enquanto descansava em um Templo Shaolin, foi intimado a comparecer em uma sessão espírita. E sabatinado sobre os mistérios do Além, não suportou o interrogatório e desmaiou. Ao despertar, encontrou-se diante do Dalai Lama. "Não procure fora. A Verdade está em seu coração", disse.

Naquela noite, consegui resgatar meu espírito de um redemoinho de emoções, certezas, dúvidas... Juntos, sorvemos uma garrafa de vinho. O bispo francês Jacques-Bénigne Bossuet escreveu: "O vinho tem o poder de encher a alma de toda a verdade, de todo o saber e filosofia".

Na segunda taça, senti-me iluminado e resolvi seguir o exemplo de meus antepassados. Na Idade Média, religiosos costumavam abrir a Bíblia aleatoriamente, acreditando que Deus os guiaria até a mensagem adequada para aquele momento de suas vidas. Encontrei o primeiro milagre de Jesus Cristo. Em uma festa de casamento, Ele transformou seis talhas de água em seiscentos litros (!) do "Veja-Sicilia" da época. Imaginei as pessoas felizes, dançando, cantando. Vinho era festa. Era alegria. Fechei os olhos e recordei a Festa da Uva e do Vinho em Vinhedo que fui com meu pai e meus amigos Carlos Cortezi e Carlos Sacoda, lembrei também de mestres e amigos como André e Miriam Martin e tantos outros. A Verdade estava em meu coração. Mas também estava no vinho, como observou o romano Plínio: In Vino Veritas.

Abri novamente a Bíblia em busca de outra confirmação: "Depois tomou em suas mãos o cálice (de vinho) e lhes disse: 'Tomai todos e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança (...)'". Não precisava de mais argumentos. Como o filho pródigo, eu retornava à casa do Pai, com uma taça de vinho na mão e uma certeza: "O vinho é a prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes".
Dias atrás encontrei a seguinte citação do Papa Bento "Se o pão é o símbolo do que o homem precisa, por seu lado o vinho é o símbolo da superabundância da qual também temos necessidade. Ele é sinal de alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia-a-dia e faz do estar juntos uma festa. Alegra os sentidos e a alma, solta a língua, abre o coração e transpõe as barreiras que limitam nossa existência".

Abracei meu espírito e chamei-o para tomar um vinho. Desarrolhamos uma garrafa.

Havíamos transposto várias barreiras. Abrimos nosso coração e encontramos Deus.

Contemplando as estrelas, fizemos os brindes: A Deus, à família e aos bons amigos e leitores.

Saúde !!!

Os 10 mais: Você nunca vai ver no rotulo de trás de uma garrafa de vinho


10. A quantidade de cervejas que o enólogo tomou pra fazer o vinho

9. O que fazer se um problema na rolha estragou o vinho

8. Um tributo à esposa

7. Um discurso político (porque não cabe)

6. Um sugestão para compatibilizar o vinho com o fígado de boi e cebola refogados em um molho balsâmico

5. O nome da pessoa que elaborou o rótulo de trás da garrafa

4. Lista de ingredientes, fora as uvas, usados no vinho (Você provavelmente não iria querer saber)

3. Um pedido de desculpas pelo alto teor alcoólico do vinho

2. Preço sugerido do vinho

1. A descrição dos benefícios do vinho para a saúde

M

Em uma época sem internet conheci Elizabeth McTarry ou “ M” como eu costumava chamá-la. A pequena inglesa de cabelos vermelhos e ares de realeza conseguiu me carregar para uma viagem à Europa por quase um ano. Era divertido porque se as festas não eram móveis como as do Papa, eram muito baratas. Nas “pontes”, fins de semana emendados com feriados pegávamos nosso bravo Peugeot 202 e nos perdíamos pelas estradas e paisagens européias.

Não precisava fazer reservas, bastava chegar à cidade e procurar um quarto barato. Em Berna uma mulher, com óculos que a deixava com o rosto de uma vespa, nos atendeu no “Bureau Touristique” e sugeriu que pegássemos um hotel maravilhoso por apenas 5 dólares. Apesar da insistência da M, resolvi ficar no hotel indicado.

Antes de irmos ao hotel decidimos provar uma Fondue que até então nem eu nem ela sabíamos o que era, mas o garçom se recusou a servir sob alegação que o dia estava muito quente para comer um prato tão forte. Argumentamos que nós comemos feijoada em pleno calor brasileiro, mas o boçal do suíço não só não sabia como era o calor do Brasil, como não fazia a menor idéia do que era uma feijoada. Tivemos que nos contentar com um mero Bundenerfleisch com vinho suíço. Ela, duas taças. Eu uma garrafa mais alguns martinis.

Saímos tortos do restaurante. Eu por beber demais e ela por tentar me segurar. Chegamos ao hotel indicado por volta da meia-noite. Acabei adormecendo por baixo de um travesseiro macio e refrescante.

A paz durou pouco. Exatamente um minuto.

Um alto-falante começou a dar berros em alemão, faróis percorriam nosso quarto. Não estivéssemos na Suíça, porque ninguém bombardeia os cúmplices, diríamos estar sob ataque aéreo. O barulho de trem deu a dica, o hotel ficava do lado da estação. O ruído era ensurdecedor, mas era só esperar o trem partir. Só que depois veio outro e mais outro. Um a cada minuto. Nunca vi tanto trem na minha vida - estes miseráveis devem estar inundando a Europa toda com relógios cuco - pensei.

M estava irritadíssima. Primeiro com meu desempenho etílico na noite anterior e depois com o ruído trem.

M, falei rindo e com a voz ainda mole como o resto do corpo, não se preocupe. São só 7 da manhã. SETE! Meu número predileto! Sabia que temos um herói chamado Super Sete? Ou seria uma marca de roupa de fantasia... Não lembro! Recepcionista, aqui é o Super Sete! Por favor, assim que esse hotel chegar à Zurique pode nos avisar para desembarcamos?

Obrigada super sete, respondeu M tirando o telefone da minha mão, mas você está mais para um zero a esquerda. Não, dois zeros a esquerda. Você tinha que escutar aquela mulher com cara de vespa?

Visualizei o número na minha cabeça: Zero Zero Sete... Na hora imaginei uma versão infantil da propaganda de sapatos sete cinco dois da Vulcabras . Ao invés do Maluf colocaria algum personagem do Vila Sésamo dando depoimento. De preferência algum narigudo. Ainda bem que viria a fazer matemática, seria um péssimo publicitário. A vida é providencial em alguns casos.

Elizabet Mctarry hoje é Mrs Fleming, casada com um escritor inglês. Ela ainda preserva seu apelido assinando com um majestoso selo de cera: “M”.

De repente uma carta me surpreende. Mrs Fleming me convida para o lançamento do livro de seu marido em Londres e oferece sua casa para me hospedar. O evento seria poucos dias depois das festividades de ano-novo.

Resolvo fazer as malas e começar por Paris. Penso em um rápido roteiro mental que faz meu espírito vibrar com a possibilidade de uma visita ao velho mundo e um reencontro com “M”, uma boa amiga.

Ambos, encontros inusitados.

N.A : Espero que isso dê em algo no mínimo interessante :/

O "'As" de James


Eu viria a contar essa história anos depois para minha amiga inglesa, Elizabeth McTarry, ou “M” como eu a apelidei. Ela se divertia e pedia para contar a mesma história várias vezes sempre que me via. Nunca achei graça, muito pelo contrario. Sempre achei a história de James triste.

Era uma noite fria em São Paulo em uma época em que ir para o interior do estado de trem ainda mantinha certo romantismo e um clima “noir”. No trem, apesar de não permitido, o jogo de cartas acontecia em um vagão clandestino usado como cassino o que era um convite a pessoas de todo tipo de estampa. Das mais finas as mais vulgares.

Na cabine, eu e um distinto senhor elegantemente trajado, de idade avançada o que não impedia a qualquer um notar seu ar de “bom vivant” e seu semblante aquilino demonstrando que ainda era uma espécie de “macho alfa”. Ambos lutávamos contra o cansaço procurando o sono pela janela, olhando a imensidão da noite até que o tédio nos venceu e como se pensasse alto ele começou uma conversa.

Filho eu passei essa vida toda lendo os rostos das pessoas. Sabia quando mentiam, sabia quando blefavam pelo simples movimento dos olhos e se não se importa, eu vejo que você está sem um Ás seja qual for o jogo que está jogando nessa vida. Deduzo que pelo que está lendo gosta de vinhos e agora confirmo pelo seu sorriso então desculpe a invasão, mas se tiver uma garrafa com você ficaria feliz de compartilhar-la e em troca posso te dar alguns conselhos.

Li uma vez que “Conselhos nada mais são que uma forma de nostalgia”. Isto para quem os dá, mas nem sempre é agradável para quem os ouve. Ainda havia muitos kilometros de trilho e aceitei a proposta.

Mortalmente silenciosa, a noite pareceu cair sobre o semblante daquele senhor.

Bonderlei .

Desculpe senhor, é um vinho do porto...

Sim eu sei. Bonderlei, James Bonderlei é o meu nome. Coisas de mãe, ela era apaixonada por meu pai Vanderlei que era condutor de bondinhos. Quanto ao vinho, nunca foi minha bebida preferida, no entanto a simbologia é perfeita para este momento e acredito que o vinho também o será.

Antes que eu pudesse me apresentar ele começou: Nessa vida, você tem que saber jogar. Saber quando esperar, simplesmente parar por um tempo, saber quando disparar em direção a algo. Se você ganhar uma rodada, espere. Não pense na vitória e muito menos na derrota. Não existem vitórias ou derrotas antes do jogo acabar. Não as contabilize, pois são apenas formas de treinamento. Você terá tempo de sobra pra contá-las realmente quando o jogo acabar porque somente assim você saberá se foi ou não vitorioso.

O segredo de sobrevivência desse jogo é que a cada rodada há um ganhador e um perdedor e o melhor que pode fazer é esperar pela melhor mão de cartas. Às vezes você terá um Ás , mas mesmo assim terá que contar apenas com você e não com a sorte mostrada.

Com um olhar cansado desapareceu naquela escuridão deixando pra trás seu corpo e suas últimas palavras, seu último Ás sob a manga.

Os 10 mais: Encontros inusitados do vinho no cinema

Quando se trata de filmes, nossos vilões geralmente usam algum tipo de substância ilegal, e nossos heróis raramente bebem, porque eles são heróis, ou são anti-heróis e quando bebem, tomam uísque, uísque, uísque, licor ou alguma outra bebida destilada. Fiquei surpreso com a quantidade de comentários e e-mails. Corri pro youtube pra caçar essas cenas e inclui-las na postagem pra ficar mais divertido. Alguns filmes eu nem conhecia ou sabia que tinha vinho em cena.

Obrigado a todos e aqui vai a seleção dos 10 mais citados por vocês nos comentários e nas mensagens via e-mail:

10. O Poderoso Chefão




9. Esse mundo é um hospício


8. Casablanca


7. Surpresas do Coração


6. Caminhando nas Nuvens


5. Estomago (Esse tinha que ser o número 1!!! Fantástico)


4. A Festa de Babette


3. Um bom ano


2. Mondovino


1. Sideways

Quando o cinema encontra o vinho


Acredito que além de vinho quase todos gostam de cinema. Se você se lembrar de uma cena de algum filme onde o vinho seja coadjuvante ou ator principal que tenha ou não tocado você de alguma maneira, compartilhe conosco comentando ou passando e-mail para zainer@yahoo.com. Mesmo que o filme que você escolher já tiver sido citado não tem problema, pode comentar e dizer o que você acha.

Série Homem Rubinato: O primeiro cliente a gente nunca esquece.


Juça que havia já se tornado uma celebridade no mundo dos vinhos (essa foto faz parte de um dos seus disputados kits de treinamento em vinho vendidos apenas nos eventos em que participa para evitar pirataria das informações em blogs de vinhos) resolveu expandir seus conhecimentos e comprou um dicionário inglês - português e um livro que encontrou em um sebo no centro da cidade chamado “Build a Cellar for dummies” .

Pouco tempo depois já se apresentava como expert na construção, manutenção e administração de adegas complexas atuando em clientes no Japão, China e Indonésia e com rápidas passagens pelos caminhos das Índias, Londres e Albuquerque.

Pouco menos tempo depois já apareceu seu primeiro cliente. Morando em um luxuoso apartamento em Alphaville, caixas de vinho se amontoavam no quarto da empregada que dormia em um colchonete sobre elas.

Estou desesperado senhor Juça, confessou o cliente, esta promiscuidade adega-empregada me obriga a só comprar vinhos em caixas de madeira, que são mais caros, a Genoveva não consegue mais limpar o rodapé por causa da dor nas costas e, o mais grave, já comemos dois “Coq au Lafite”.

É...muito grave, sentenciou o expert, e tem mais: O vinho nãp pode ser guardado em caixas porque elas permitem o aparecimento de cupins que comem as rolhas e os defensivos aplicados na madeira dão ao vinho um gosto desagradável, as vezes chega a ser fatal.

Se a madeira é tratada com anti-cupim, como podem aparecer cupins? Perguntou o cliente. Esta não estava no livro e Juça improvisou: É que o cupim brasileiro é bicho ruim e tira de letra esses defensivos franceses que eles passam nas caixas que é especifico pra cupim europeu.

O apartamento era realmente grande com muitas paredes sem janelas, de modo que o Juça bolou uns painéis corrediços, a 40 centímetros da parede, instalou um “breezaire” para manter a temperatura, prateleiras de ferro arredondado pra facilitar a circulação do ar e adicionou um software para localizar as garrafas.

No mês seguinte, o cliente ligou, a adega ficou ótima, mas sobraram muitas garrafas. Vamos falar com o síndico e fazer uma adega no hall dos elevadores, sugeriu Juça. Não precisa, o síndico sou eu, respondeu alegre o cliente.

Mas ainda sobraram garrafas porque o cliente era compulsivo e sempre que arranja lugar pra todas, comprava mais.

Juça ofereceu uma nova idéia. Fez um minucioso levantamento dos restaurantes que permitiam aos clientes guardar vinhos, estabeleceu um programa de jantares, despesas reembolsáveis – claro – e em cada um deles negociou o aluguel de um escaninho para o cliente. Aproveitou também para levar a esposa pra jantar nos melhores restaurantes da cidade. A secretária também aproveitou umas e outras, embora neste caso ele tivesse de arcar com as despesas do Motel.

Mas o cliente voltou a ligar. A Receita Federal estava levando os usuários de adegas em restaurantes e cruzando o valor dos vinhos com a declaração e a explicação de que os onze Petrus 1961 só tinham valor sentimental porque a data de validade estava vencida, não havia convencido o Leão.

Juça propôs fazer uma adega no sítio, o cliente não tinha sítio, tinha apartamento em Ubatuba, que foi vetado porque na praia dá muito mofo e sempre falta luz. Venderam o apartamento de Ubatuba e compraram um sítio em Vinhedo, porque Juça achava que com este nome fechava uma cabala positiva.

Fizeram a adega dentro das melhores praticas do ITIL, num local amplo, com um potente climatizador e levaram todos os vinhos que estavam espalhados pelos restaurantes pra lá. A coleta dos vinhos redeu mais uma rodada de jantares para Juça e a esposa. A secretaria não, porque não podia beber por estar grávida.

O cliente ligou (Relaxem... ele vai ligar até o fim da história). O vizinho do sítio foi assaltado e os ladrões levaram toda sua coleção de wiskies. Juça argumentou que ninguém roubava vinhos e o cliente concordou, mas temia que os ladrões irritados pela falta de wiskies quebrassem os vinhos por vingança.

Juça , eficiente e expert, prontamente mandou colocar uma porta de aço com fechadura reforçada com leitura de íris e digital. Criou uma ante-sala com uma falsa adega e colocaram cerveja, wisky e cachaças para os ladrões.

Acho bom colocar uns vinhos também, porque como vinho está na moda é possível que os ladrões também queiram algumas garrafas. Sugeriu sensatamente nosso expert.

Novamente, ligou o cliente.

Os ladrões haviam entrado, arrombaram a porta de aço da adega com um maçarico, quebraram uma garrafa e escreveram com o vinho na parede: Cadê os “dólar” mano? Na próxima a gente quebra tudo.

Ainda bem, ponderou Juça, que só quebraram uma garrafa.

É, só uma. Mouton 1945. Magnum, aquiesceu o cliente.

Juça decidiu substituir a fechadura por um comando por voz, de modo que a porta ficou lisa como uma parede e foi disfarçada com uma daquelas fotos ampliadas com paisagem das montanhas suíças que todo mundo usa pra disfarçar portas.

O cliente levantou uma dúvida. Os ladrões poderiam ouvir o motor do climatizador atrás da parede de aço. Juça sorriu: Eu já havia pensado nessa possibilidade. Vamos colocar um interruptor na porta da adega falsa. Quando ela estiver aberta, o condicionador não funciona.

E adivinhem... O cliente ligou. Os ladrões entraram e só roubaram a adega falsa, mas deixaram a porta aberta e sem refrigeração. Os vinhos foram pro brejo. “Acho que agora o senhor não tem mais idéias, não “seu” Juça” ?

Engano seu meu amigo. Idéias eu as tenho e muitas, mas vamos ao que interessa: Será que você ainda tem vinhos?

Os 10 mais: Situações e o vinho


O vinho é citado na Bíblia e foi bebido por Jesus Cristo na última ceia, quando, ao ofertá-lo aos apóstolos, o Senhor disse que ele simbolizava seu sangue. Na mitologia grega foi um presente de Dionísius, o Deus das festas e da alegria, para que o homem tivesse uma bebida adequada para comemorar. Sem dúvida, os efeitos inebriante e euforizante do álcool associado ao prazer, foi um dos grandes fatores de popularização da bebida tanto nos tempos antigos como no mundo moderno e por isso os dez mais dessa semana destaca vinho indicado para algumas situações.

Os 10 mais: Situações e seus vinhos

10. Comemorar um casamento gay
- Definitivamente um assemblage como um Shiraz-Cabernet australiano com toques de fruto carnudo da shiraz e a estrutura do cabernet, assim como o amor legalmente sancionado

9. Comemorar um casamento hetero
- Agora aqui cabe um espumante brut nacional que deve ser bebido ainda jovem se bem que teoricamente foi feito pra envelhecer.

8. Levar um fora da garota ou um pé na bunda da esposa.
- Banyuls e Porto Tawny são perfeitos, auto-indulgentes. Eles suportam bem sobremesas de chocolate e mais, aguentam firme até mesmo um litro de Haagen-Dazs.

7. Dar um fora em uma garota ou um pé na bunda da esposa.
- Qualquer vinho alcoolico com um amargor final cairá bem. Um Amarone italiano é provavelmente o mais indicado. Mas esqueça a taça Ridel, nete caso o ideal é um copo de vidro de requeijão.

6. Sentar com a esposa para rever o orçamento doméstico.
- Vinho de garrafão pra você não lembrar da grana que gasta com vinhos caros e a " patroa" esquecer de inclui-los na lista de corte.

5. Conhecer a familia de sua namorada pela primeira vez.
- Experimente um vinho de corpo médio que agrada a quase todos os paladares, sem muita madeira, tanino ou alcool. Eu chamo isso de vinho curinga que pode ser usado pra acompanhar massas e carnes. Um Merlot da Valduga.

4. Sair de casa pra morar sozinho(a)
- Agora você pode ir pra regiões mais desconhecidas do grande público como o sul da africa, Nova Zelandia que produz vinhos fantasticos. Sua familia vai ser agradavelmente surpreendida com a forma palatável. Tanto do vinho quanto da noticia da sua saida de casa.

3. Jantar na sua casa com o cunhado prestes a pedir dinheiro emprestado.
Suco de uva Tang mas se o cunhado for legal pode subir o nível pra uma Tubaina.

2. Relaxar após um dia arduo de trabalho.
Escolha um vinho que você possa saborear devagar como um Riesling Alsaciano que tem baixo teor de alcool e é rico em sabor. Assim você não desmaia no sofa antes do jogo, novela ou da sua série de ação favorita

1. Seduzir uma mulher.
Use Pinot Noir, uma das uvas mais romanticas que existe. É tão dificil cultiva-la mas quando consegue se produzir um bom vinho ele é sedutor e sublime. Minha dica vai para o Pinot Noir produzido Kim Crawford da Nova Zelandia.

Você e o vinho



Essa semana estou com a cabeça voltada para outros assuntos e não consigo me concentrar pra escrever algo interessante. Nem com o Juça eu consegui conversar para saber qual sua mais nova idéia.

De qualquer forma não quero deixar o blog sem postagens e muito menos gastar meu tempo ou o de vocês com superficialidades. Por isso pensei em pedir a ajuda de todos que acompanham e enriquecem com seus e-mails e comentários esse blog, convidando-os a compartilhar suas histórias ao redor vinho. Como foi seu primeiro contato com o vinho ? O que ele despertou ou desperta ?

Um forte abraço e obrigado!

Série O Homem Rubinato: Técnicas de Vinho-linguistica

Estava eu a tomar meu Porto de todo noite em companhia de um bom livro quando aparece, do nada, o Juça.

Oi Juça! Que mandas?

Estou preparando minha primeira palestra de Técnicas Vinholinguisticas Juça, me explicou que o vinholinguista é uma nova profissão que não só ensina técnicas nas palestras, mas também cuida do seu vinho. Monta sua adega, harmoniza com pratos.

Mas isso ai não é o que um sommelier faz ?

Não. O sommelier, explicou o Juça, apenas orienta. O Vinholinguista participa do seu prazer.

Mas Juça, você não entende nada de vinhos.

Verdade, mas eu assisti a 4 palestras sobre os 5 melhores vinhos do Chile.

E você acha que porque degustou 5 vinhos chilenos já é um conhecedor?

Você não entendeu... O professor era sempre o mesmo, o titulo da palestra também era sempre o mesmo. O que mudava eram os vinhos. Então tecnicamente eu provei os 20 melhores vinhos do Chile.

Juça, o melhor vinho do Chile pode mudar a cada nova palestra. É um conceito muito subjetivo, não é o bastante pra você entender de vinho.

De vinho...vinho mesmo...eu não entendo nada mas aprendi que com um bom recurso multimídia, musiquinha, clips e um sotaque inglês pra falar Blueberries, currants você não precisa entender de vinho pra fazer palestra. Mas eu vim aqui pra treinar e já que está tomando um Porto, podemos começar: Todos juntos....pensamento na taça..Limpe os dedos da taça...a taça...Segure a taça...a taça....pelas hastes...segure as taças...

Todo mundo de pé e balançando...

Let´s Go Pessoaaaaaaal! Levanta a taça, bota o nariz, enfia esse nariz sem medo, inspire, feche os olhos, aspire – Sem desanimar!!!!Inspire, aspire, gira horário...agora anti-horário..Igual na ABS...olha os aromas...é flor, é pau, é pedra!

ANIMALLLLLLLLLLL!!!! Ta empireumático já isso aqui !!!!

Junto comigo, rola a língua pra frente, rola a língua pra trás!!

Meu Porto já era, mas pra manter o astral e preservar o amigo eu pergunto:

Juça, agora você quer que eu engula ou cuspa?

Minhas Revelações sobre Vinhos


No inicio desta semana A Senhora fez uma brincadeira para que cada um de nós mostrássemos nossa lista dos 10 "cartões vermelhos". Achei muito interessante e resolvi criar algumas listas com os 10 mais sobre diversos assuntos relacionados ao vinho e aqui vai minha primeira lista.

Nós aprendemos sobre nós mesmos e nosso mundo através de pequenas revelações. Eu tive a compreensão de um pouco destas revelações ao longo dos anos em que dizem respeito à minha vida com o vinho. Logo ao lado estão as 10 mais importantes revelações que tive sobre o mundo do vinho.

10. IPHOFER JULIUS ECHTER BERG – TROCKEN RIESLING QUALITÄSTWEIN AP 1996
Este foi o primeiro vinho que falou comigo e meu paladar e me chamou a atenção para observá-lo melhor.

9. Me pagam pra orientar degustações.
Dá pra acreditar?

8. Regiões produtoras de vinho são os melhores lugares para viver
Diga o que quiser sobre o oceano, vistas de montanha, as cidades grandes do mundo e ilhas desertas.

7. Austríaca Ice Wine
Esta é uma revelação recente pra mim. Foi como uma luta violenta com um vestido de veludo na Scarlett Johansson.

6. Não há relação entre o que está no exterior e interior da garrafa
Se você acha que a aparência do frasco tem alguma coisa a dizer sobre o suco de dentro, então eu quero as suas informações de contato porque você é um cliente em potencial para meu novo projeto: A venda das pontes de Madson. Brincadeiras a parte, as embalagens de vinho são muitas vezes um exercício de disfarçar o que está dentro da garrafa.

5. Não leve o vinho tão a sério
Porque quem o vende também não o leva. Quem o produz também não te leva a sério. Eu não te levo a sério. Provavelmente a única pessoa que te leva a sério é você mesmo, então porque não se junta a nós e dê umas boas risadas.

4. Espumante na praia é melhor que cerveja e caipirinha.
Me considerei sonhador, indulgente, hedonista, metido , mas até hoje eu não consigo pensar em nada melhor do que o zumbido de um dia de verão na varanda ou o barulho do mar e a minha própria garrafa de Espumante Brut

3. Críticos, revistas e sommeliers não sabem nada sobre meu paladar
"Este tem 95 pontos? Este ganhou concursos!" E daí ?

2. Porto Dona Maria Antonia Vintage Private Reserva:
Esse vinho é bom, muito bom. O ano era 2005 eu tinha começado a levar meu relacionamento a sério com minha esposa e a introduzi no mundo dos vinhos com este excelente Porto. Não deu outra, hoje é minha boa companheira nas descobertas e revelou-se mais exigente que eu me deixando sempre em dúvida se o vinho que escolhi está bom ou não ou se acompanha bem o prato.

1. Vinho é sempre interessante mesmo que seja só para acompanhar.
Esta é a revelação mais importante que me abateu sobre o vinho. Essa sempre foi a verdade e eu suspeito que sempre será. Parece que essas pessoas que são atraídas para o vinho de uma forma ou de outra são pessoas dispostas a explorar todos os tipos de idéias interessantes, tendem a pensar mais profundamente, tendem a querer conversar mais a sério e levar as piadas menos a sério, tendem a colocar grande ênfase no viver bem. Veja como exemplo você agora que acabou por ler essa lista.

Se você tem uma sugestão para uma lista dos 10 mais ou quer compartilhar a sua, seja bem vindo e obrigado por compartilhar!

Série Homem Rubinato: Na adega com Juça

Tem Pinot Noir? Queria um que não fosse muito caro, nada de safra famosa, mas também não precisa ser de uma safra que faça a gente passar vergonha em algum restaurante dos Jardins. Safra 1998. É que o rótulo foi pintado por um artista plástico famoso. Tem algum pintado pelo Chico Anísio ou pelo Didí? Um tinto e um branco, por favor. Dois mil? Eu consigo fazer consórcio? Dá pra alugar? É que vai ter um jantar lá em casa e a adega ta meio vazia. Vou servir no churrasco só pra ver a cara do metido do marido da minha prima. Tem que ter fiador? Tem meia garrafa? Um cabernet e uma Tubaina de garrafa para as crianças. Me dá umas dez garrafas mas assim...de safras sortidas. Quer que embrulhe ou vai beber aqui mesmo?

This is my TOP TEN list everybody !


"Cada um deve fazer uma listinha com 10 escolhidos para dar o cartão vermelho. Pode ser uma pessoa, uma atitude, enfim, tudo aquilo que de alguma forma nos incomoda, se quiser e precisar, dê uma justificativa breve."

Então aqui vai minha lista de cartões vermelhos:

10) Fotos de aniversário, casamento filminho de 1 ano de criança, slides de férias na casa da avó no interior. Finalmente tive minha revanche!!!! Fiz um vídeo de quase 10 minutos no aniverário de 1 ano do meu filho, infelizmente muita gente que não tem nada a ver acabou pagando o pato - hauauhahuaauh

9) Você vai dar um espirro, mas bem na hora que ele está vindo acontece alguma coisa ou algum engraçadinho grita " Atchim!".

8) Piloto de avião quando fala a tripulação. Parece que ser carioca é pré-requisito pra pilotar avião.

7) Flanelinha. Não pago. Tem uns caras de pau que pedem adiantado

6) Valet. Não pago. Se for pra estacionar na rua deixa que eu mesmo faço.

5) Frentistas que veem você chegar no posto de gasolina e desligar o motor ao lado de uma bomba pra só depois a figura dizer que aquela bomba é só para pagamento a prazo, ou que não funciona.

4) Pessoas que dão aquela aceleradinha, de propósito, só para que você não o ultrapasse.

3) Topada de dedo do pé principalmente no inverno

2) Gente que sempre reclama de falta de dinheiro, que passa o ano todo endividada mas não abre mão das compras exageradas no Natal e das malditas frutas secas que invadem os lares de qualquer critão, ou não cristão nesta época do ano.

1) Papai-Noel
Devido a uma confusão que fiz durante mais de 30 anos com datas e personagens eu ia dar cartão vermelho ao dia de Natal porque sempre esperei o Papai Noel pra pega-lo em flagrante e leva-lo até a policia e quem sabe até ganhar uma recompensa. Pra quem vive em um país onde todos sabem a localização exata dos bandidos e nada é feito, achava normal ninguem fazer nada quando um cara invade sua casa com um bando de veados todo dia 25 de dezembro. Minha diversão vinha no sábado de aleluia quando eu vestia Judas de papai-noel e o atirava na rua pra ser malhado e queimado até, sem entender o porque, fui proibido pela minha familia. Então eu dou cartão vermelho pro papai-noel e quero avisa-lo que um dia a justiça será feita e seu reinado de terror irá acabar.

Série O Homem Rubinato

Estava o Juçanir numa pior. Já por fazer 6 meses desempregado, levando calote atrás de calote e já se tornando sócio preferencial de clubes seletos como SPC e Serasa onde já é íntimo e chamado carinhosamente de “Seu Juça” pelas incansáveis atendentes.

Num destes domingos, esta Juça folheando os classificados de emprego quando leu: “Procura-se quem conheça Rubinato”.

Não fazia idéia do que era isso, imaginou ser a destas tecnologias novas que surgem do dia pra noite, mas procurando no google viu que era uma bebida.

Mesmo com tão pouca informação, o desespero gera a audácia, telefonou e marcou uma entrevista. Foi recebido por um senhor muito velho de sotaque italiano que pelo traje e forma de falar demonstrava ser uma pessoa muito importante, praticamente um lorde.

O senhor explicou ter recebido de herança de seu pai, que havia recebido do avô, uma garrafa de Rubinato para ser bebida na noite do dia 31 na virada do século, mas devido a um engano da cozinheira o usara para temperar um pedaço de alcatra e ele estava perdido porque se lembrava apenas, vagamente ainda, que se chamava Rubinato.

O Juça, confesso, pode ser um cara ignorante e até oportunista, mas é ligeiro como o vento. Quando deduziu que esse tal de Rubinato era um vinho italiano, improvisou: “É duma raridade...”.

E se ajeitando na poltrona continuou: “É bem característico, italiano mesmo...tipo assim...da Itália, concentrado no que se propõe, com um caráter de uva bem nítido, muita personalidade, frutado”

Colocou-se a disposição para dar um curso básico sobre Rubinato, começando pelos fundamentos: O vinho no Egito em vinte lições, pagamento adiantado, claro.

Imediatamente foi em uma grande livraria, mas mudou de idéia. Preferia a Internet, gastava menos e dava pra ler no laptop da esposa. Encontrou muito sobre vinhos, nada sobre Rubinato.

Um dia o velho perguntou-lhe de forma tímida se não poderia fazer uma palestra no Rotary. Juça ficou constrangido porque, como sabe, o Rotary não paga nem o passe de metro e “ eu preciso pensar no Rubinato das crianças”.

A fama logo se espalhou. Já era apontado na ruas. “Aquele sardento lá, sabe quem é ? É o rubinólogo. “ Você sabia que o Ricasoli não engarrafa o Rubinato sem passar pelo rubinólogo. Nosso rubinólogo! “Viaja todo ano pra Itália e França com as despesas pagas”.

Se meteu a escrever em algumas revistas e folhetins de vinhos: “Rubinato e Bom senso com ou sem canja de galinha não faz mau a ninguém”.

Fundou uma confraria: Rubinatunos non Sensis.

Um belo dia chegou um convite pra participar de um júri internacional de degustação de vinhos. O pânico tomou seu corpo e seu ser. Pensou em não ir, mas a noticia já tinha vazado e no dia seguinte sua foto já estava em alguns jornais.

“Nosso Rubinólogo pode presidir júri internacional em Bourgogne”

Na saída de casa amigos e vizinhos com a camisa da seleção brasileira cantavam: “Ru-BI-NA-TUUUU ! UUUUU! UI UI UI ! UUUUUUU. E bebe, cheira engole e cai”

Em Bourgogne foi recebido pelo organizador que logo se desculpou por não ter sido possível encontrar uma única garrafa de Rubinato, razão pela qual faria parte do júri.

Aliviado, achou de bom alvitre expor alguma contrariedade: “Conheço bem Bourgogne, no entanto acredito estarem utilizando muita madeira. Farei o possível para não destoar.”

Imitando os outros jurados ao seu lado, pegou a ficha de degustação, cheirou, bebeu, sacudiu as taças, fechou os olhos usando mais um lado que o outro de uma narina, deu suspiros. No começo deu 83 pontos para todos, mas quando um jurado que estava a seu lado abriu um laptop, Juça fez o mesmo com o laptop que sua esposa havia lhe emprestado. Executou um programa de gerar números randômicos que sempre usava pra jogar na mega-sena, era também um dos únicos programas que ele fez na faculdade e deu certo. Os resultados do programa ele passava pra ficha de degustação.

Ao fim do evento recebeu o premio “Jurado com menor desvio padrão”, aquele que teve o menor erro médio quadrático e mais se aproximara das médias finais.

Na volta, foi recebido com festa, recebeu convites para livros, entrevistas em jornais, tv e revistas.

E assim foi Juça pelo mundo sem nunca ter provado um único gole do tal Rubinato e continua ele sempre a escrever sobre Rubinato. Às vezes alegre às vezes triste, dispersivo , conforme lhe vai o espírito.

Vale a pena experimentar