Série Encontros Inusitados: Santô


As crianças têm amigos invisíveis. Sentem prazer em "possuir" uma amizade exclusiva e não compartilhá-la com ninguém. Nem com os pais. Também tenho meus amigos invisíveis, meus encontros inusitados. Às vezes, degusto vinhos com Holmes (Sherlock) e fumo charutos com Winston (Churchill).

Na última semana, troquei todos eles pela companhia do genial Alberto Santos-Dumont, ou Santô, como dizem os franceses.

"Prefiro os balões. O vôo é mais tranqüilo", confidenciou-me Alberto. E aproveitou para contar sobre seu primeiro passeio aéreo, ao lado do balonista Alexis Machuron, aos 24 anos. Assim que ele ouviu os sinos do Ângelus lá embaixo, anunciando o meio-dia, disse ao seu guia: "Está no horário do almoço". Para surpresa do francês, o brasileiro retirou da mala ovos cozidos, rosbife, frango, queijos, fruta, sorvete, doces. "Deve ser um hábito brasileiro andar com a refeição na mala. Hábito estranho" teria pensado o balonista, antes de se render ao prazer gastronômico. "A melhor parte foi o champagne. Os flocos de neve se formavam nas taças", disse Alberto. Para encerrar o banquete aéreo: licor e café brasileiro.

Eu sabia que, além de inventor genial, Santos-Dumont era um gourmet sofisticado. Em seu apartamento, no Elysée Palace Hotel, ele promovia, para deleite de seus comensais, "jantares aéreos". As cadeiras tinham três metros de altura e, para se sentar, era preciso utilizar uma escada portátil. Durante o banquete, uma pequena aeronave fazia evoluções no teto. "A idéia surgiu de seu primeiro vôo?", perguntei. "A sensibilidade nas alturas é mais refinada. Quis usar esse conceito na gastronomia", respondeu Alberto, para em seguida falar sobre a Baladeuse, o primeiro carro aéreo portátil do mundo. Com ele, o inventor podia sair da frente de seu apartamento e voar até seus restaurantes preferidos. Ele gostava de comemorar suas conquistas aeronáuticas cercado por pratos deliciosos, excelentes vinhos e ótimas companhias. Os maîtres conheciam seu prato favorito: Linguado.

Em nossos encontros em um café ao redor do Elysée Palace Hotel, Alberto estava elegante. O terno escuro sempre impecável. As golas altas e a gravata vermelha. O chapéu Panamá e o relógio de pulso Cartier. "Eu tinha problemas para conferir o tempo de vôo. Desenhei esse instrumento e meu amigo Louis o construiu", disse ele, que ditou a moda em Paris no início do século XX. Reservado, nunca gesticulava. Quase nunca. Certa vez, ele me falou sobre o dia em que contornou a Torre Eiffel com o dirigível nº 6 e venceu o prêmio Deutsch. Gesticulou tanto que notei, em seu braço, uma pulseira com um pingente. "Uma medalha de São Benedito para proteção contra acidentes. Presente da Princesa Isabel" revelou o inventor. Contou-me em detalhes como conheceu a condessa d´Eu, filha de Dom Pedro II exilada na França após a queda da monarquia no Brasil. Em uma experiência com o dirigível nº 5, um vento inesperado e o fim do combustível o forçaram a uma aterrissagem sobre um castanheiro do parque do Barão de Rothschild. "Estou com sede", disse a um jardineiro que surgiu em seu socorro. Minutos depois, os serviçais do aristocrata surgiram com um balde de gelo e uma garrafa de champagne. Enquanto ele se "recuperava" do acidente, algumas pessoas chegaram até a árvore com uma cesta de piquenique. Era um almoço oferecido pela Princesa Isabel, que morava na propriedade ao lado. "Fui agradecer a gentileza", revelou sorridente.

Em nosso último encontro, conversamos sobre nossa infância. "Uma vez ganhei um concurso de pipas. A minha tinha o formato de um morcego e era a maior delas, mas não chegou a voar", contei. "Eu gostava de fazer pequenos balões de papel nas festas juninas", disse Santos, com o olhar distante. Conferiu o horário pelo relógio de pulso. "Preciso ir, tenho um jantar com Aída, la première aerochauffeuse du monde. Você sabia que é para cá, Paris, que as almas das pessoas boas vão quando morrem?", despediu-se, subindo no Demoiselle. Sorri de contentamento após aquela revelação. "Au Revoir, mon ami Santô", despedi acenando. Era em uma Cidade-Luz que eu gostaria de passar a eternidade, talvez não necessariamente Paris.

Com esse pensamento deixei Paris e Santô para trás, decidido a percorrer a pé o Caminho de Santiago de Compostela. Com mochila nas costas e cajado na mão, resolvi trocar os prazeres da boa vida pelo estoicismo dos cristãos medievais.

* O desenho do livro "Santos-Dumont", do cartunista Ruy Jobim Neto, mostra uma das inusitadas cenas do aeronauta que gostava de tomar café e estacionar seus balões no meio das avenidas parisienses.

7 comentários:

A Senhora disse...

Essa, de estacionar os balões onde desse na telha, eu não sabia! :)

Chico disse...

Viajou hein ... de novo

Andre Martin disse...

Até que para um "amigo invisível" e imaginário, ele carrega uma dose e tanto de histórias, curiosidades e cultura! Parece quase uma pesquisa bibliográfica, nem tanto imaginária. Está mais para amigo psicográfico do que imaginário. rsss

Mas fiquei mesmo muito decepcionado ao ser relembrado que você ainda mete na boca aquele negócio fedorento, cuja fumaça quente queima todos os papilos gustativos da língua! Como pode alguém que fuma charuto poder apreciar o melhor sabor dos vinhos????

Zainer Araujo disse...

Charuto !? Nossa meu amigo...tenho que te dizer que já não me dá tanto prazer quanto antes. Era diferente fumar e conquistar o olhar de uma ou outra garota...agora conquisto o olhar do meu pequeno JP e duas outras garotas em idade adolescente. Confesso que o que restou foi uma caixa vazia de Romeu&Julieta (meus favoritos) e uma caixa de madeira pra guardar charutos que ganhei da Katia, que antes guardava bons puros e hoje contas a pagar - Ambos prejudiciais a saúde ! ahuaauhauhuha

Zainer Araujo disse...

Aos amigos do forum ! Esse ano não prometo mas espero que o ano que vem possa integrar a equipe de vocês a mais uma semana pelas vinicolas do nosso pais e passar a viajar mais "ai fora" que aqui dentro blog :)

Um abraço e obrigado pelos e-mails.

Anônimo disse...

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