Série Encontros Inusitados: A saga dos 5 rótulos Parte III

“No entanto, ela se move”: Teria sussurrado Galileu, depois do julgamento no Tribunal do Santo Ofício.

Condenado a negar publicamente suas teses, o cientista teve a prisão decretada pela Santa Sé. Para os homens da época, as idéias de Galileu eram mais do que a negação das Sagradas Escrituras. Eram a prova de que Deus tinha relegado seus filhos a um segundo plano. A Terra se movia ao redor do Sol, submissa e dócil. Essa conclusão fazia de Galileu não apenas um excelente cientista mas um homem cruel que tirava da humanidade o prazer de habitar o centro do universo. Mas poucos sabiam que atrás daquele homem escondia-se um apreciador de vinhos.

As correspondências com o discípulo Benedetto Castelli traziam, entre observações científicas, comentários sobre queijos e a descrição – com notas e tudo mais que constumamos fazer nos dias de hoje – dos melhores vinhos da época. Isso mesmo, além de pai da Física moderna, Galileu pode ser considerado o pai dos sistemas atuais que usamos para classifica em número a qualidade da bebida mas , sou capaz de apostar, não era um enochato.

Ao aproximar-me do túmulo de Galileu, na Santa Croce, após um rápido encontro com Michelangelo, abri o livro Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Universo, uma garrafa do “Chianti Classico Castello di Brolio”, duas taças e muitas respostas. “Eppur su Muove”: a frase, possivelmente apócrifa, estava inscrita no mármore. Acima, erguia-se o busto de Galileu com os olhos no Firmamento, a mão direita segurando uma luneta e a esquerda repousando sobre uma esfera. Era o testemunho de que a verdade científica tinha triunfado sobre o fanatismo religioso, no entanto, ele só foi oficialmente absolvido pela Igreja Católica 341 anos após sua morte, ou seja, em 1999.

Folheei o livro escrito por ele. “O que Galileu acharia das Leis de Newton? E da Teoria da Relatividade? E a física quantica ?” questionei abrindo a garrafa de vinho. Ao observar o líquido dançar na taça, lembrei que o termômetro estava entre as inúmeras invenções do cientista. Em sua versão primitiva, o instrumento levava vinho no bulbo, em vez de mercúrio.

Silêncio.

Já havia bebido duas taças e estava pronto para deixar o lugar quando fui surpreendido por uma voz grave: “Quem está aí?”.

“Quer um pouco de vinho?”, estendi a taça na direção daquele homem que após tatear o espaço vazio segurou-a com firmeza parecendo guiar-se unicamente pela minha voz e totalmente indiferente à fraca iluminação do candelabro.

A morte não havia curado a cegueira do célebre cientista. Fiz uma pequena reverência ao concluir que estava diante de Galileu. “O vinho é composto de humor líquido e luz”, disse-me. Em seguida, girou a taça e sentiu os aromas do vinho. “Glorioso, divino!”, exclamou. Após degustá-lo, caiu na gargalhada. “Luz. Sempre soube que o vinho era milagroso, mas que frasco esquisito”, concluiu examinando a garrafa nas mãos com uma expressão de encantamento nos olhos.

"É, respondi, na verdade a garrafa deveria ser quadrada e áspera pra facilitar a... ". Sem graça, silenciei-me em minha ignorância.Ele prosseguiu: “Os homens são como frascos de vinho. Examine os frascos em uma taverna, antes de beber vinho tinto. Alguns quase não têm decoração. Estão empoeirados e despojados... Mas cheias de um vinho que inspira os bebedores a cantá-lo chamando-o de glorioso e divino. Depois, repare em outros frascos com lindos rótulos. Ao experimentá-los, você vai ver que estão cheios de ar ou perfume. Esses frascos só servem para se urinar dentro deles”.

Aquela genialidade e bom humor me fizeram rir, imaginando as garrafas nas quais urinaria e as pessoas “cheias de ar” que conhecia. “De onde você vem?”, questionou Galileu. “Do futuro”, respondi, desconhecendo resposta mais apropriada. “Como isso é possível?”, indagou incrédulo. “No mesmo ano da safra deste vinho, você foi absolvido pelo papa”, revelei a ele. “O papa sabia que eu estava certo. Meu julgamento foi uma encenação. Quer prisão melhor do que a minha? Cinco aposentos com vista para os jardins do Vaticano e um mordomo para cuidar das refeições e do vinho”, disse, referindo-se à sua “dura” pena. “Minhas idéias prevaleceram?”, prosseguiu ansioso. “Grandes cientistas apoiaram-se nelas. Um deles afirmou: ‘Se pude ver mais longe foi por estar sobre o ombro de gigantes’. E você era um deles”, respondi. Ele sorriu.

Passos na escuridão. Dois homens inconfundíveis aproximaram-se. Isaac Newton e Albert Einstein saudaram Galileu: “Gênio, Gênio”. Após apresentar os três, o autor da Teoria da Relatividade explicou aos antecessores os avanços da Física. Afastei alguns passos. Um estrondo na direção dos cientistas atrapalhou minhas divagações. Observei com assombro Newton e Einstein diminuírem de tamanho, e Galileu transformar-se em um gigante de oito metros de altura. Ele colocou os dois cientistas sobre seus ombros, pegou a luneta e passou por mim apressado, cantarolando “Eppur su Muove”. Lembrei de meu amigo gigante, André Martin. Levantei um brinde a eles, abri minha maleta e deparei com as duas últimas garrafas de vinho e o livro O Príncipe.

Eu ainda tinha uma visita a fazer antes do deixar o local.

6 comentários:

HSLO disse...

Passando pra te desejar um ótimo final de semana.

abraços

Hugo

A Senhora disse...

Acho que André ainda não leu isso, menino... :)
Estou ficando viciada nesses seus vinhos.

beijos

Andre Martin disse...

É... ainda não tinha lido... e quase não consigo ler as últimas frases... a emoção turvou-me a vista.

Pra que isto, rapaz? Uma lembrança dessas contaminando o deleite (ou devinho?) da presença desses gênios seletos?

De todo modo, obrigado pela deferência. Já adorava participar da leitura dessas suas histórias... e agora como parte delas, é ainda mais delicioso!

Um brinde! À sua saúde!

Chico Soares disse...

ahhh meu amigo...vamos nos juntar a voce nesses vinhos. Quero a lista completa da degustação desses nectares que tanto te inspiram a criar estas historias deliciosas. Por falar nisso, esta devendo as notas de degustacao dos seus eventos de vinhos.

Zainer Araujo disse...

Obrigado pessoal ! Sem palavras - rs

Roberto disse...

Sei que não liga mas pedi pro pessoal do site adega arrumar o nome. Parece que nao eh só o seu que erraram. Vamos ver neh, qualquer coisa a gente faz um abaixo assinado mesmo contra sua vontade - rs

Abraços enofílicos!

Vale a pena experimentar