Serie Encontros Inusitados: Dracula (p1)

Por que essas inspirações aparecem em momentos como esse: Uma perda, uma derrota, algo que não funcionou como devia. Sorrateiramente ela vem pela noite, como um vampiro.

O frio e uma leve chuva parecem que criam um ambiente meio mágico quando coincidem com seu estado de espírito. Caminhando por São Paulo, quase meia noite, a cidade é tomada por uma aura de profundo silêncio que parece criar uma acústica especial pelas ruas. Somente em noites assim, você consegue ouvir os sons naturais da cidade. A chuva correndo pelas calhas, o jornal carregado pelo vento, alem do som dos meus próprios passos ecoando entre os prédios como se eu estivesse usando ferraduras nos pés. Posso ouvir o mendigo urinando na outra esquina como se alguém tivesse esquecido uma torneira aberta e, mesmo de certa distancia, consigo visualizar o vapor da urina levantando contra o muro. Segundos depois, ele geme e treme, o que normalmente sinaliza o micro-orgasmo que nós homens temos com o alívio da bexiga. O vento correndo pelas ruas parece uivar as palavras “você deveria estar embaixo do edredom, otário”. Certamente não estou, e nem estarei por um longo tempo. Após uma longa e estressante reunião de alguns minutos que martelaria pela minha cabeça o dia todo, eu era um homem com uma missão: tomar as três taças de vinho e um charuto que me levariam ao torpor de um sono profundo e repleto de sonhos felizes.

E logo ali estava ele: Bar Du Vin. Um bistrô e uma pequena casa de vinhos próxima a Avenida Paulista. Seu proprietário se chama Pipa, um Argentino de aproximadamente 60 anos de longos cabelos brancos, bigode amarelado pelo Malboro mau cheiroso que insiste em fumar e feições de roedor. Em uma das “todas as noites” que ele enche a cara atrás do balcão, me contou que teria dado o nome do seu estabelecimento inspirado no dia em que ele encontrou sua esposa em um ritual de masturbacíon com uma garrafa de cabernet.

O lugar estava vazio, como é o normal de uma quinta-feira chuvosa. A única exceção era um senhor de trajes estranhos sentado sozinho em uma das mesas do fundo casa.

- Hola Pipa!!! Como estão os negócios hoje?

Ele já se encontrava no seu estado mais comum: dentes roxos, cambaleando e limpando o mesmo pedaço do balcão por uma hora. Depois de tanto vinho ele se comunica em um idioma próprio, uma espécie de portunhol com ênfase no “nhol”

- No hay casi nadie. Solamente aquel loco allá – ele aponta com o polegar em direção a seu único cliente. Curiosamente, ele confere se a figura sinistra sentada no fundo nos observava, então se inclina contra o balcão, e sinaliza um numero para mim usando ambas as mãos.

- Oito?! Oito taças?

- No, botellas! – ele susurra - Garrafas hombre!

Eu já tinha visto Pipa cobrar uma ou duas taças a mais de vinho para algum cliente que tinha tomado umas a mais. Então não achei o inflado número nada estranho, porém algo exagerado.

- Hoje ele llego a las ocho y toma sin parar. La otra vez que el esteve aqui, tomo seis garrafas y salio sin pagar. Piense en chamar la policia, pero decidi no fazer. Un día despues, encontre un envelope que botaran abajo da puerta con setecientos
reais adientro. Perguntei para el si fuerá ele y me dijo que sim.

O relógio marcava uma e meia da manhã. Eu pedi uma taça do meu Malbec de sempre, o Achaval Ferrer Finca Mirador, e um martelinho de vinho do porto Ramos Pinto (para assegurar que o efeito seria instantâneo). Tomei os dois em praticamente duas viradas, o porto primeiro e a taça depois quando, repentinamente, uma voz grossa e macabra parece vir da mesa de trás. Eu lentamente viro minha cabeça para conferir.
- “I see a red door and I want it painted black …No colors anymore, I want them to turn black” – sem mover um músculo a figura sombria continua cantando com o rosto escondido pelo chapéu (uma espécie de cartola) – “I see the girls walk by dressed in their summer clothes. I have to turn my head until my darkness goes…”

Prefiro Eric Clapton, B.B King, mas definitivamente aquilo era Stones. Ele termina a ultima frase com uma gargalhada de gelar a alma. Finalmente levanta a cabeça e me olha com olhos que toavam vermelhos de tanto vinho. Embora estivesse usando roupas antigas, que davam ares de terem sido roubadas de um apresentador de circo do século passado, seu rosto era jovial. Provavelmente com seus trinta e poucos anos. Lançando um olhar firme que parecia penetrar-me, ele disse para minha total surpresa:

- Teixeira... mundo pequeno esse, não?! A propósito, desculpe meu gosto pelo Stones, não lembrei nada de Clapton ou BB King para o momento. Gosto de, Paint in Black... uma das minhas favoritas. – ele toma lentamente mais um gole de vinho tinto - Estou feliz em ver você aqui.

- Teixeira é o sobrenome da família da minha mãe que não uso...

- Foi exatamente o que eu imaginei...

Apesar de falar um perfeito português, meu novo amigo tinha um sotaque forte, quase impossível de reconhecer..

- Espere um segundo, Sr. Chapeleiro Maluco! Como você sabe o sobrenome de solteira da família da minha mae?

- Hahahaha. Digamos que eu conheci algumas mulheres dessa família, a sua avó... muito bem por sinal – responde com uma certa malícia. – Por que você não senta e me acompanha nesta garrafa de syrah enquanto eu te conto uma história?

A ausência de uma melhor companhia somada com a possibilidade de uma taça gratuita de vinho me convenceu a sentar com a figura misteriosa. Ele pausa por alguns segundos para outro gole de vinho, então me olha com um meio sorriso na boca.

- E se eu disser que eu e a sua querida vovozinha fomos amantes?

- Eu diria que você tem um estômago de titânio e, além disso, é um tremendo escroto por comer a velha. Considerando que minha avó faleceu já faz uns bons anos e nem a conheci, não creio que o caso de vocês seja possível. Ao menos que ela tivesse uma certa tendencia por pedofilia.

- E se eu te disser que sua avo era uma virgem quando isso aconteceu?
Neste ponto, o rumo ridículo que a história estava tomando começou a me irritar. Simultaneamente, a imagem mental da minha avó com um cara desses me causava certa náusea.

- O que? A pedra que você fumou devia ser ótima. Eu acho que vou retornar ao balcão, boa noite. A propósito, se você quiser tentar sua sorte com as mulheres mais uma vez tem um lar de idosos duas quadras daqui...

- Espere! – a voz dele parece ganhar um timbre quase animal. Ele agarrou meu braço com a força de um gorila. – Sente-se novamente, caro amigo. Eu não terminei.
Um pavor irracional parece dominar meu corpo e uma estranha sensação de submissão toma conta de mim.

- Se existe algum pedófilo nessa sala, você pode ter certeza que esse sou eu. Afinal, eu já devia ter uns quatrocentos anos quando a “consumi”.

- Você não está querendo dizer que tem quase quinhentos anos?!

- Quatrocentos e oitenta e sete em Outubro para ser mais exato.

Um sorriso diferente começa a brotar da sua face pálida, transformando sua fisionomia lentamente em algo que parecia não pertencer a este mundo.

- Deixe eu me apresentar, me chamo Miguel Ark Angelo. Mas o que importa a você nesse momento não é quem eu sou, mas ”o que” eu sou. – ele aproxima seu rosto do meu deixando que nossos narizes quase se tocarem –Os antigos nos chamavam de Cainitas. Entre nós somos conhecidos como a família, mas vocês, a presa, nos chamam de...

- Vampiros – eu interrompo


(continua na PARTE II...)

5 comentários:

Mirian Martin disse...

Você retoma a escrita de forma envolvente e nos deixa presto até o final que, afinal, ainda não é o final.
E você tem razão - os nossos melhores trabalhos são os tirados do fundo da alma, quando esta também está no fundo.
Mas eu conheço você o suficiente para saber que é aí dentro que vai conseguir os degraus para a nova subida.

bjs

Ana Silvieri disse...

Vinho e Sangue?

Andre Martin disse...

Dizem que é a tristeza - e não o amor - o combustível da alma dos poetas e artistas mais inspirados.

E o vagar pelas ruas sob a lua cheia é o que preenche em vagalhões algumas dessas almas...

Vampiros são sugadores de sangue, energia e, por que não, vinho.

Anônimo disse...

Hummmm....Zainer, vocë é vampiro...agora entendo muitas coisas quando ia ao seu flat, porque nao dormia, por que nao gosta de cama...ai meu Deus...vou ter que ficar anonima agora - rs

Bruno disse...

RAH Zaza...te cuida muleke que o passado te assombra!!! Vou vir mais pra ler os comentarios que o blog. RAH!

Vale a pena experimentar