Serie Encontros Inusitados: Dracula (p2)

Vampiros – eu interrompo

Uma leve pausa entre nós permite que eu possa engolir de volta o coração que quase saiu pela boca. Com uma mistura de medo e curiosidade pergunto:

- E como você descobriu que eu sou o neto da minha avó?

- Vocês compartilham do mesmo cheiro, ou como diriam os cientistas: feromônios. As naturezas nos fez eximem caçadores; como a maioria dos bons predadores somos animais noturnos. Entre nossas habilidades está a visão e o olfato extremamente aguçados.

- Então quer dizer que deu uma de lobo mau e comeu vovó.

- Sim, não nesses termos, eu e Maria fomos amantes e ela foi minha refeição esporadicamente por três anos. Filho, eu sei que isso vai soar um pouco estranho, mas sua vovozinha era uma maravilha. Linda, doce... deliciosa em todos os sentidos das palavra.

- Então você chupou o pescoço dela também?

O rosto dele parece ter revisitado a cena em que cometia promiscuidades com a falecida.

- Chupei ela em todos os sentidos da palavra.

- Eca!!! Mas se você chupou o sangue dela, porque ninguém nunca achou as marcas no pescoço?

- Hahaha. Aquela cena romantizada no cinema já não existe faz séculos. Hoje, para manter a discrição, a gente escolhe morder em um lugar muito mais escondido: embaixo da dobra do glúteo.

- Eu diria que não é um dos lugares mais agradáveis para se fazer uma refeição.

- Correto, garoto! Principalmente quando você tem um nariz bom como o meu. Na realidade, eu já estou praticamente acostumado, diria até que adiciona certo sabor.

Ele toma um cálice inteiro de vinho em um único gole e continua:

- Discrição tornou-se uma qualidade necessária a sobrevivência da minha espécie. Você morde um pescoçinho aqui, uma coxinha ali, uma bundinha lá e uma multidão aparece na porta da tua casa carregando tochas na mão. E uma coisa que eu aprendi em todos estes anos é: ser perseguido por uma multidão com tochas não é divertido. Tipos mais extravagantes como Conde Vlad III...

- Você quer dizer o Drácula?

- Não o próprio, porque esse foi apenas um dos meus nomes, mas sim, teve esse conde e outros tantos que quase causaram a extinção da minha espécie. Ninguém interferia nos nossos assuntos, até aquele flamboyant sair empalando as pessoas no quintal de casa. A maioria de nós foi caçado e queimado durante as cruzadas e a inquisição.

- Queimado?! E a estaca no coração?

- Eficaz, mas não necessariamente eficiente. Você pode matar um vampiro com uma estaca no coração, assim como mataria qualquer outra coisa que tenha um. Mas um tiro no peito seria muito mais simples e rápido (e a bala nem precisa ser de prata). Mas quando digo que a maioria de nós foi queimada estou me referindo a queimaduras solares. Por algum motivo nossa pele não resiste a luz do sol, não há Coopertone que possa proteger-nos. O menor facho de luz pode causar uma cicatriz enorme na pele e uma exposição mais longa pode queimar o corpo inteiro como se fosse papel.

- E água benta? O alho? E a cruz?

- RAH!RAH!RAH!! - blasfema com cara de nojo – Eu faço Tang com água-benta. A única coisa que eu tenho contra ela é que possivelmente foi tocada por dedos repletos de pedofilia. A cruz não causa-nos nenhum dano físico, a não ser que seja jogada na nossa cabeça. Apesar disso, a igreja e a Família são inimigos antigos, portanto é sempre bom evitar qualquer lugar onde haja uma cruz. O alho... bem, o alho pode ser revoltante a qualquer um que tenha um olfato umas 500 vezes melhor do que dos humanos. Na idade media, pessoas nos vilarejos acharam o alho uma maneira eficaz de espantar os vampiros, agora você sabe o por que.

- Mas e os poderes paranormais que supostamente deveriam te defender?

- Poderes?! Hahaha. A gente tem qualidades de um bom caçador: visão, olfato, força, velocidade e nada mais. Nossos olhos exercem uma certa influencia sobre a presa (assim como de alguns outros predadores como a naja por exemplo). Mas nada de sair voando por ai ou virar fumaça e passar por baixo das portas. Você ficaria surpreso em saber que é quase tudo é invenção de Hollywood.

- E virar morcego?

- Essa é a pior de todas as invenções, provavelmente essa comparação vem por possuirmos hábitos alimentares semelhantes. Seria o mesmo que dizer que os vegetarianos podem se transformar em uma vaca. Afinal, meu corpo não é muito diferente do seu. Temos fome, sono, sede, tesão, ficamos embriagados (apesar de precisar dez vezes mais álcool do que vocês para que isso aconteça), ficamos doentes...

- Então se você não se agasalhar antes de sair de casa, pode pegar um resfriado.

- Não esse tipo de doença. Algo como o HIV por exemplo.

- Você está me dizendo que vampiros podem pegar AIDS?

Ele sorri:

- Não, como você está imaginando. Se nos alimentarmos de um portador do vírus da AIDS temos um diarréia por dias (o mesmo com a hepatite). Da ultima vez fiquei uns dois dias sem tirar a bunda da privada. Apesar disso, qualquer outro tipo de comida e bebida não nos faz nada. Elas sequer são digeridas no nosso organismo, se eu comer um Big-mac, possivelmente terei um Big-Mac mastigado no toilet no dia seguinte. Nosso corpo só se alimenta realmente com sangue. Sangue de qualquer tipo, inclusive animal.

Completo meu copo com um pouco mais de vinho. Ark Angelo sinaliza a Pipa para que traga mais uma garrafa.

- Me explica uma coisa então Dracula. Por que a Família continua se alimentando de humanos se seria muito mais fácil se alimentar de gado, porco e frango? Assim como nós.

- Por dois grandes motivos: 1) sangue animal não é nada nutritivo comparado ao sangue humano. Hoje em dia, é trending entre nós se alimentar só de bichos , nós chamamos estes vampiros de Veterinarianos (o que no meu ponto de vista é a coisa mais “gay” que um vampiro possa fazer). Motivo número 2, o sabor. Nada se compara ao sabor do sangue humano e, na minha humilde opinião, principalmente o Brasileiro.

- Os sabores se diferem entre as nacionalidades então?

- Completamente. Japoneses não tem gosto de nada (por isso não existem quase cainitas por aqueles lados). Europeus foram nossa fonte de alimentação por milênios, já estamos todos um pouco enjoados. Chineses são extremamente salgados (possivelmente por causa de todo molho de soja que eles consomem). Americanos tem muita gordura, meu colesterol já anda nas alturas. Já os Brasileiros tem um sabor exótico: o sangue quente, sabor profundo, “temperado” e levemente doce. Nada se compara ao sangue sugado de uma bundinha da mulher Brasileira. As mulheres então...

Enquanto falava, eu conseguia perceber um aumento na salivação de Ark Angelo, ou Dracula.
Seus caninos pareciam se excitar com o tema da nossa conversa. Ele continua empolgado:

- Mulheres tem o sabor muito melhor que o dos homem. Esse é o motivo do qual a grande maioria das vampiras, em algum ponto, se torna lésbica. Sangue masculino é mais amargo, a higiene pessoal deles normalmente deixa à desejar e o excesso de pêlos também não é nada apetitoso. Infelizmente, hoje em dia, temos que abrir mão do paladar para não sermos descobertos.

- Se você anda por ai mordendo a bunda das pessoas por séculos, como nunca foi pego?

- O truque mais antigo do mundo, criança: embebedar muito a vitima... o suficiente para que ela não lembre nada no dia seguinte. Ela vai se sentir fraca e com a bunda um pouco dolorida (talvez encontrar uma marca), mas vai pensar que foi apenas mais uma daquelas noites selvagens.
No fundo, eu tinha que concordar que essa tática já havia funcionado comigo de maneira semelhante no passado. Enquanto viajo pelos meus pensamentos nas possibilidades de existirem vampiros de verdade entre nós, Pipa se aproxima da mesa quase caindo em uns dos desníveis no piso do bar.

- Señores, nosotros vamos fechar ahora. Por favor paguem lo que devem a la casa.

Ark Angelo termina o conteúdo da sua taça rapidamente e pede:

- Preciso te pedir um favor enorme. Encontre-me lá fora.

- Você não tem um daqueles criados corcundas para fazer favores para voce?

Ele sorri.

- Não fazemos mais isso. Mesmo escolhendo pessoas de aparência horrenda no passado (para não despertar o apetite) , sempre acabávamos devorando a criadagem nos momentos de fome extrema.

Eu me levanto e caminho em direção ao caixa com certa dificuldade depois de tanto vinho. Quando olho para minhas costas para me despedir do vampiro, ele já teria desaparecido (deixando para trás a conta não paga). Olho para Pipa pressentindo certa revolta, mas, para minha surpresa, o mesmo se encontra completamente calmo:

- Un dia el vá a pagar como sempre faz. –o Argentino levantou os dois ombros em um sinal de desinteresse.

Coloco meu casaco me preparando para encontrar o vampiro do lado de fora do bar. Antes confiro minha imagem no espelho do bar... por um segundo imagino que eu talvez seja uma refeição apetitosa.

(continua na PARTE FINAL...)

5 comentários:

Roberto disse...

Lembro quando voce trouxe o "vinho do Dracula" pra uma palestra sua no dia das bruxas...Onde acho ele ?

Ana Silvieri disse...

Zainer,conta de novo pra gente a lenda do vinho do Dracula. Quem nunca ouviu vai adorar

Raquel Sances disse...

Que delicia de historia. Sabe me dizer onde encontro esse vampiro ?Estou aguardando a 3a parte.

Andre Martin disse...

Esse vampiro dá com a língua nos dentes! Fica contando tudo a seu respeito!... Quer ser pego, é?
Acho que ele "van-pirou"!!! LOL

Mirian Martin disse...

Esse vampiro faz a gente pensar que há mais vampiros sobre a face terra do que poderíamos imaginar. :)

beijinhos

Vale a pena experimentar